segunda-feira, 24 de março de 2014

O conceito de felicidade - Aristóteles

Mas, como entendemos o bem? Ele não é certamente semelhante às coisas que somente por acaso têm o mesmo nome. São os bens uma coisa só, então, por serem derivados de um único bem, ou por contribuírem todos para um único bem, ou eles são uma única coisa apenas por analogia? Certamente, da mesma forma que a visão é boa no corpo, à razão é boa na alma, e identicamente em outros casos. Mas talvez, seja melhor deixar de lado estes tópicos por enquanto, pois um exame detalhado dos mesmos seria mais apropriado em outro ramo da filosofia. Acontece o mesmo em relação à forma do bem; ainda que haja um bem único que seja um predicado universal dos bens, ou capaz de existir separada e independente, tal bem não poderia obviamente ser predicado ou atingido pelo homem, e agora estamos procurando algo atingível. Talvez alguém possa pensar que vale a pena ter conhecimento deste bem, com vistas aos bens atingíveis e praticáveis; com efeito, usando-o como uma espécie de protótipo, conheceremos melhor os bens que são bons para nós e, conhecendo-os, poderemos atingi-los. Este argumento tem alguma plausibilidade, mas parece colidir com o método científico; todas as ciências, com efeito, embora visem a algum bem e procurem suprir-lhe as deficiências, deixam de lado o conhecimento da forma do bem. Mais ainda: não é provável que todos os praticantes das diversas artes desconheçam e nem sequer tentem obter uma ajuda tão preciosa. Também é difícil perceber como um tecelão ou um carpinteiro seria beneficiado em relação ao seu próprio oficio com o conhecimento deste “bem em si”, ou como uma pessoa que vislumbrasse a própria forma poderia vir a ser um médico ou general melhor por isto. Com efeito, não parece que um médico estude a “saúde em si”, e sim a saúde do homem, ou talvez até a saúde de um determinado homem; ele está curando indivíduos. Mas já falamos bastante sobre estes assuntos. Voltemos agora ao bem que estamos procurando, e vejamos qual a sua natureza. Em uma atividade ou arte o bem tem uma aparência, e em outros casos outra. Ele é diferente em medicina, em estratégia, e o mesmo acontece nas artes restantes. Que é então o bem em cada uma delas? Será ele a causa de tudo que se faz? Na medicina ele é a saúde, na estratégia é a vitória, na arquitetura é a casa, e assim por diante em qualquer outra esfera de atividade, ou seja, o fim visado em cada ação e propósito, pois é por causa dele que os homens fazem tudo mais. Se há, portanto, um fim visado em tudo que fazemos, este fim é o bem atingível pela atividade, e se há mais de um, estes são os bens atingíveis pela atividade. Assim, a argumentação chegou ao mesmo ponto por um caminho diferente, mas devemos tentar a demonstração de maneira mais clara. Já que há evidentemente mais de uma finalidade, e escolhemos algumas delas (por exemplo, a riqueza, flautas ou instrumentos musicais em geral) por causa de [isto é, como meios para] algo mais, obviamente nem todas elas são finais; mas o bem supremo é evidentemente final. Portanto, se há somente um bem final, este será o que estamos procurando, e se há mais de um, o mais final dos bens será o que estamos procurando. Chamamos aquilo que é mais digno de ser perseguido em si mais final que aquilo que é digno de ser perseguido por causa de outra coisa, e aquilo que nunca é desejável por causa de outra coisa chamamos de mais final que as coisas desejáveis tanto em si quanto por causa de outra coisa e, portanto, chamamos absolutamente final aquilo que é sempre desejável em si, e nunca por causa de algo mais. Parece que a felicidade [eudaimonia] mais que qualquer outro bem, é tida como este bem supremo, pois a escolhemos sempre por si mesma, e nunca por causa de algo mais. Mas, as honrarias, o prazer, a inteligência e todas as outras formas de excelência, embora as escolhamos por si mesmas (escolhê-las-íamos ainda que nada resultasse delas), escolhemo-las por causa da felicidade, pensando que através delas seremos felizes. Ao contrário, ninguém escolhe a felicidade por causa das várias formas de excelência, nem, de um modo geral, por qualquer outra coisa além dela mesma.

ARISTÓTELES ÉTICA A NICÔMACO LIVRO II 1

Sendo, pois, de duas espécies a virtude, intelectual e moral, a primeira, por via de regra, gera-se. e cresce graças ao ensino — por isso requer experiência e tempo; enquanto a virtude moral é adquirida em resultado do hábito, donde ter-se formado o seu nome por uma pequena modificação da palavra (hábito). Por tudo isso, evidencia-se também que nenhuma das virtudes morais surge em nós por natureza; com efeito, nada do que existe naturalmente pode formar um hábito contrário à sua natureza. Por exemplo, à pedra que por natureza se move para baixo não se pode imprimir o hábito de ir para cima, ainda que tentemos adestrá-la jogando-a dez mil vezes no ar; nem se pode habituar o fogo a dirigir-se para baixo, nem qualquer coisa que por natureza se comporte de certa maneira a comportar-se de outra. Não é, pois, por natureza, nem contrariando a natureza que as virtudes se geram em nós. Diga-se, antes, que somos adaptados por natureza a recebê-las e nos tornamos perfeitos pelo hábito. Por outro lado, de todas as coisas que nos vêm por natureza, primeiro adquirimos a potência e mais tarde exteriorizamos os atos. Isso é evidente no caso dos sentidos, pois não foi por ver ou ouvir freqüentemente que adquirimos a visão e a audição, mas, pelo contrário, nós as possuíamos antes de usá-las, e não entramos na posse delas pelo uso. Com as virtudes dá-se exatamente o oposto: adquirimo-las pelo exercício, como também sucede com as artes. Com efeito, as coisas que temos de aprender antes de poder fazê-las, aprendemo-las fazendo; por exemplo, os homens tornam-se arquitetos construindo e tocadores de lira tangendo esse instrumento. Da mesma forma, tornamo-nos justos praticando atos justos, e assim com a temperança, a bravura, etc. Isto é confirmado pelo que acontece nos Estados: os legisladores tornam bons os cidadãos por meio de hábitos que lhes incutem. Esse é o propósito de todo legislador, e quem não logra tal desiderato falha no desempenho da sua missão. Nisso, precisamente, reside a diferença entre as boas e as más constituições. Ainda mais: é das mesmas causas e pelos mesmos meios que se gera e se destrói toda virtude, assim como toda arte: de tocar a lira surgem os bons e os maus músicos. Isso também vale para os arquitetos e todos os demais; construindo bem, tornam-se bons arquitetos; construindo mal, maus. Se não fosse assim não haveria necessidade de mestres, e todos os homens teriam nascido bons ou maus em seu ofício. Isso, pois, é o que também ocorre com as virtudes: pelos atos que praticamos em nossas relações com os homens nos tornamos justos ou injustos; pelo que fazemos em presença do perigo e pelo hábito do medo ou da ousadia, nos tornamos valentes ou covardes. O mesmo se pode dizer dos apetites e da emoção da ira: uns se tornam temperantes e calmos, outros intemperantes e irascíveis, portando-se de um modo ou de outro em igualdade de circunstâncias. Numa palavra: as diferenças de caráter nascem de atividades semelhantes. É preciso, pois, atentar para a qualidade dos atos que praticamos, porquanto da sua diferença se pode aquilatar a diferença de caracteres. E não é coisa de somenos que desde a nossa juventude nos habituemos desta ou daquela maneira. Tem, pelo contrário, imensa importância, ou melhor: tudo depende disso.

ARISTÓTELES ÉTICA A NICÔMACO LIVRO II 2

Uma vez que a presente investigação não visa ao conhecimento teórico como as outras — porque não investigamos para saber o que é a virtude, mas a fim de nos tornarmos bons, do contrário o nosso estudo seria inútil —, devemos examinar agora a natureza dos atos, isto é, como devemos praticá-los; pois que, como dissemos, eles determinam a natureza dos estados de caráter que daí surgem. Ora, que devemos agir de acordo com a regra justa é um princípio comumente aceito, que nós encamparemos. Mais tarde havemos de nos ocupar dele, examinando o que seja a regra justa e como se relaciona com as outras virtudes. Uma coisa, porém, deve ser assentada de antemão, e é que todo esse tratamento de assuntos de conduta se fará em linhas gerais e não de maneira precisa. Desde o princípio fizemos ver que as explicações que buscamos devem estar de acordo com os respectivos assuntos. Tal como se passa no que se refere à saúde, as questões de conduta e do que é bom para nós não têm nenhuma fixidez. Sendo essa a natureza da explicação geral, a dos casos particulares será ainda mais carente de exatidão, pois não há arte ou preceito que os abranja a todos, mas as próprias pessoas atuantes devem considerar, em cada caso, o que é mais apropriado à ocasião, como também sucede na arte da navegação e na medicina. Mas, embora o nosso tratado seja desta natureza, devemos prestar tanto serviço quanto for possível. Comecemos, pois, por frisar que está na natureza dessas coisas o serem destruídas pela falta e pelo excesso, como se observa no referente à força e à saúde (pois, a fim de obter alguma luz sobre coisas imperceptíveis, devemos recorrer à evidência das coisas sensíveis). Tanto a deficiência como o excesso de exercício destroem a força; e, da mesma forma, o alimento ou a bebida que ultrapassem determinados limites, tanto para mais como para menos, destroem a saúde ao passo que, sendo tomados nas devidas proporções, a produzem, aumentam e preservam. O mesmo acontece com a temperança, a coragem e as outras virtudes, pois o homem que a tudo teme e de tudo foge, não fazendo frente a nada, torna-se um covarde, e o homem que não teme absolutamente nada, mas vai ao encontro de todos os perigos, torna-se temerário; e, analogamente, o que se entrega a todos os prazeres e não se abstém de nenhum torna-se intemperante, enquanto o que evita todos os prazeres, como fazem os rústicos, se torna de certo modo insensível. A temperança e a coragem, pois, são destruídas pelo excesso e pela falta, e preservadas pela mediania. Mas não só as causas e fontes de sua geração e crescimento são as mesmas que as de seu perecimento, como também é a mesma esfera de sua atualização. Isto também é verdadeiro das coisas mais evidentes aos sentidos, como a força, por exemplo: ela é produzida pela ingestão de grande quantidade de alimento e por um exercício intenso, e quem mais está em condições de fazer isso é o homem forte. O mesmo ocorre com as virtudes: tornamo-nos temperantes abstendo-nos de prazeres, e é depois de nos tornarmos tais que somos mais capazes dessa abstenção. E igualmente no que toca à coragem, pois é habituando-nos a desprezar e arrostar coisas terríveis que nos tornamos bravos, e depois de nos tornarmos tais, somos mais capazes de lhes fazer frente.

Ética a Nicômaco - A doutrina do meio-termo - Aristóteles

8. Em relação ao meio-termo, em alguns casos é a falta e em outros é o excesso que está mais afastado; por exemplo, não é a temeridade, que é o excesso, mas a covardia, que é a falta, que é mais oposta à coragem, e não é a insensibilidade, que é uma falta, mas a concupiscência, que é um excesso, que é mais oposta à moderação. Isto acontece por duas razões; uma delas tem origem na própria coisa, pois por estar um extremo mais próximo ao meio-termo e ser mais parecido com ele, opomos ao intermediário não o extremo, mas seu contrário. Por exemplo, como se considera a temeridade mais parecida com a coragem, e a covardia mais diferente, opomos esta última à coragem, pois as coisas mais afastadas do meio-termo são tidas como mais contrárias a ele; a outra razão tem origem em nós mesmos, pois as coisas para as quais nos inclinamos mais naturalmente parecem mais contrárias ao meio-termo. Por exemplo, tendemos mais naturalmente para os prazeres, e por isso somos levados mais facilmente para a concupiscência do que para a moderação. Chamamos, portanto, contrárias ao meio-termo as coisas para as quais nos sentimos mais inclinados; logo, a concupiscência, que é um excesso, é mais contrária à moderação. 9. Já explicamos suficientemente, então, que a excelência moral é um meio-termo e em que sentido ela o é, e que ela é um meio-termo entre duas formas de deficiência moral, uma pressupondo excesso e outra pressupondo falta, e que a excelência moral é assim porque sua característica é visar às situações intermediárias nas emoções e nas ações. Por isso, ser bom não é um intento fácil, pois em tudo não é um intento fácil determinar o meio – por exemplo, determinar o meio de um círculo não é para qualquer pessoa, mas para as que sabem; da mesma forma, todos podem encolerizar-se, pois isso é fácil, ou dar ou gastar dinheiro; mas proceder assim em relação à pessoa certa até o ponto certo, no momento certo, pelo motivo certo e da maneira certa não é para qualquer um, nem é fácil; portanto, agir bem é raro, louvável e nobilitante. Quem visa ao meio-termo deve primeiro evitar o extremo mais contrário a ele, de conformidade com a advertência de Calipso: “mantém a nau distante desta espuma e turbilhão.” De dois extremos, com efeito, um induz mais em erro e o outro menos; logo, já que atingir o meio-termo é extremamente difícil, a melhor entre as alternativas restantes é, como se costuma dizer, escolher o menor dos males, e a melhor maneira de atingir este objetivo é a que descrevemos. Mas devemos estar atentos aos erros para os quais nós mesmos nos inclinamos facilmente, pois algumas pessoas tendem para uns e outras para outros; descobri-los-emos mediante a observação do prazer ou do sofrimento que experimentamos. Isto feito, devemos nos dirigir resolutamente para o extremo oposto, pois chegaremos à situação intermediária afastando-nos tanto quanto possível do erro, como se faz para acertar a madeira empenada. Em tudo devemos precaver-nos, principalmente contra o que é agradável e contra o prazer, pois não somos juízes imparciais diante deste. Devemos sentir-nos em relação ao prazer da mesma forma que os anciãos do povo se sentiram diante de Helena, e repetir em todas as circunstâncias as suas palavras, pois se o afastarmos de nós é menos provável que erremos. Em resumo, é agindo desta maneira que seremos mais capazes de atingir o meio-termo. Mas, sem dúvida, isto é difícil, especialmente nos casos particulares, porquanto não é fácil determinar de que maneira, e com quem e por que motivo, e por quanto tempo devemos encolerizar-nos; [a] às vezes nós mesmos louvamos as pessoas que cedem e as chamamos de amáveis; [b] mas às vezes louvamos aquelas que se encolerizam e a chamamos de viris. Entretanto, as pessoas que se desviam um pouco da excelência não são censuradas, quer o façam no sentido do mais, quer o façam no sentido do menos; censuramos apenas as pessoas que se desviam consideravelmente, pois estas não passarão despercebidas. Mas não é fácil determinar racionalmente até onde e em que medida uma pessoa pode desviar-se antes de tornar-se censurável (de fato, nada que é percebido pelos sentidos é fácil de definir); tais coisas dependem de circunstâncias específicas, e a decisão depende da percepção. Isto é bastante para determinar que a situação intermediária deve ser louvada em todas as circunstâncias, mas que às vezes devemos inclinar-nos no sentido do excesso, e às vezes no sentido da falta, pois assim atingiremos mais facilmente o meio-termo e o que é certo.

Virtudes intelectuais e sabedoria prática (Aristóteles - Ética a Nicômaco)

Com referência ao discernimento [sabedoria prática, prudência – phronesis], chegaremos à sua definição se considerarmos quais são as pessoas dotadas desta forma de excelência [virtude]. Pensa-se que é característico de uma pessoa de discernimento ser capaz de deliberar bem acerca do que é bom e conveniente par si mesma, não em relação a um aspecto particular – por exemplo, quando se quer saber quais as espécies de coisas que concorrem para a saúde e para o vigor físico –, e sim acerca das espécies de coisas que nos levam a viver bem de um modo geral. A evidência disto é o fato de dizermos que uma pessoa é dotada de discernimento em relação a algum aspecto particular quando ela calcula bem com vistas a algum objetivo bom, diferente daquelas que são o objetivo de uma arte qualquer. Consequentemente, no sentido mais geral a pessoa capaz de bem deliberar é dotada de discernimento. Mas ninguém delibera acerca das coisas invariáveis, nem acerca de ações que não podem ser praticadas. Portanto, uma vez que o conhecimento científico envolve demonstração, mas não pode haver demonstração de coisas cujos primeiros princípios são variáveis, porque tudo nelas é variável, e porque é impossível deliberar acerca de coisas que são como são por necessidade, o discernimento não pode ser conhecimento científico nem arte. [1] Ele não pode ser ciência porque aquilo que se refere às ações admite variações; [2] Nem arte, porque agir e fazer são coisas de espécies diferentes. A alternativa restante, então, é que o discernimento é uma qualidade racional que leva à verdade no tocante às ações relacionadas com as coisas boas ou más para os seres humanos. De fato, enquanto fazer tem uma finalidade diferente do próprio ato de fazer, a finalidade na ação não pode ser senão a própria ação, pois agir é uma finalidade em si. 13. Devemos então examinar mais uma vez a excelência moral, pois o que ocorre com ela tem estreita analogia com o que acontece com o discernimento em sua relação com o talento. O discernimento e o talento não são a mesma coisa, mas são coisas semelhantes, e a excelência natural se relaciona de maneira idêntica com a excelência em sentido estrito. Realmente, todos pensamos que cada tipo de caráter de certo modo condiz naturalmente com quem o possui, pois desde o momento exato do nascimento nós seríamos justos, ou dotados de autodomínio, ou corajosos, ou teríamos outras qualidades morais. Não obstante, esperamos descobrir que o verdadeiro bem é algo diferente, e que as várias formas de excelência moral no sentido estrito condizem conosco de outra maneira. De fato, até as crianças e os animais selvagens possuem as disposições naturais, mas sem a razão elas podem evidentemente ser nocivas. De qualquer modo, parece bastante óbvio que uma pessoa pode ser induzida em erro pelas disposições naturais, da mesma forma que um corpo pesado destituído de visão pode chocar-se violentamente com obstáculos por lhe faltar a visão; acontece o mesmo na esfera moral, mas se uma pessoa de boa disposição natural dispõe de inteligência passa a ter excelência em termos de conduta, e a disposição que antes tinha apenas a aparência de excelência moral passa a ser excelência moral no sentido estrito. Portanto, da mesma forma que na parte de nossa alma que forma opiniões há dos tipos de qualidades, que são o talento e o discernimento, na parte moral também há dois tipos, que são a excelência moral natural e a excelência moral em sentido estrito, e esta última pressupõe discernimento. É por isto que algumas pessoas dizem que todas as formas de excelência moral são formas de discernimento, razão pela qual Sócrates sob certos aspectos estava certo e sob outros aspectos estava errado; com efeito, pensando que todas as formas de excelência moral são formas de discernimento ele estava errado, mas dizendo que a excelência moral pressupõe discernimento ele estava certo. Uma prova desta asserção é que ainda hoje todas as pessoas que definem a excelência moral, depois de mencionar a disposição moral e seus objetivos acrescentam que se trata de uma disposição consentânea com a reta razão; e a reta razão e a razão consentânea com o discernimento. Todas as pessoas, então, parecem de certo modo adivinhar que a excelência moral é uma disposição desta natureza, ou seja, a disposição consentânea com o discernimento. Mas devemos ir um pouco além, pois a excelência moral não é apenas a disposição consentânea com a reta razão; ela é a disposição em que está presente a reta razão, e o discernimento é a reta razão relativa à conduta. Sócrates pensava portanto que as várias formas de excelência moral são manifestações da razão, pois dizia que todas elas eram formas de conhecimento científico, enquanto nós pensamos que elas pressupõem a manifestação da razão. É claro, então, diante do que foi dito, que sem o discernimento não é possível ser bom no sentido próprio da palavra, nem é possível ter discernimento sem a excelência moral. Desta maneira podemos também refutar o argumento dialético segundo o qual se poderia sustentar que as várias formas de excelência moral existem separadamente umas das outras; poder-se-ia dizer que a mesma pessoa não é dotada da melhor maneira pela natureza para a prática de todas as formas de excelência moral, de tal modo que ela já teria adquirido uma enquanto ainda não tinha adquirido outra. Esta afirmação é possível a respeito das formas naturais de excelência moral, mas não a respeito daquelas em relação às quais uma pessoa é qualificada de boa em sentido irrestrito, pois juntamente com uma qualidade - o discernimento - a pessoa terá todas as formas de excelência moral. E é óbvio que, ainda que o discernimento não tivesse qualquer valor prático, teríamos necessidade dele porque ele é a forma de excelência moral da parte de nosso intelecto à qual ele convém; é óbvio também que a escolha não será acertada sem o discernimento, da mesma forma que não o será sem a excelência moral, pois o discernimento determina o objetivo e a excelência moral nos faz praticar as ações que a levam ao objetivo determinado. Mas apesar disto o discernimento não tem o primado sobre a sabedoria filosófica, isto é, sobre a parte mais elevada de nosso intelecto, da mesma forma que a arte dá medicina não tem o primado sobre a saúde, pois a arte da medicina não usa a saúde mas se esforça para que ela exista; ela emite ordens, então, no interesse da saúde, mas não dá ordens à saúde. Mais ainda: sustentar o primado do discernimento equivaleria a dizer que a ciência política comanda até os deuses, porque ela emite ordens acerca de todos os assuntos da cidade. É por esta razão que pensamos que homens como Péricles têm discernimento, porque podem ver o que é bom para si mesmos e para os homens em geral; consideramos que as pessoa s capazes de fazer isto são capazes de bem dirigir as suas casas e cidades. É esta explicação do nome ‘moderação’, que significa ‘preservar o discernimento’. O que a moderação preserva é a nossa convicção quanto ao nosso bem, pois o prazer e o sofrimento, na verdade, não destroem todas as convicções – por exemplo, eles não destroem a convicção no sentido de que o triângulo tem ou não tem seus ângulos iguais aos de dois ângulos retos, mas somente convicções acerca de atos a praticar. Efetivamente, os primeiros princípios das ações que praticamos estão na finalidade a que elas visam, mas as pessoas desgastadas pelo prazer ou pelo sofrimento fracassam inteiramente quando se trata de discernir qualquer destes primeiros princípios – de discernir que por causa destes ou por estes elas devem escolher e praticar todos os atos que elas escolhem e praticam –, pois a deficiência moral destrói os primeiros princípios. O discernimento deve ser então uma qualidade racional que leva à verdade no tocante às ações relacionadas com os bens humanos. Mas, além disso, embora haja uma excelência em matéria de arte, não há tal excelência em matéria de discernimento; na arte, é preferível a pessoa que erra conscientemente, mas em matéria de discernimento, à semelhança do que ocorre com as várias formas de excelência, ocorre o contrário. É claro, então, que o discernimento é uma forma de excelência, e não uma arre. Havendo, portanto, duas partes da alma dotadas de razão, o discernimento deve ser uma forma de excelência de uma das duas, ou seja, da parte que forma opiniões, pois a opinião se relaciona com o que é variável, da mesma forma que o discernimento. O discernimento, entretanto, não é apenas uma qualidade racional, e isto é evidenciado pelo fato de se poder deixar de usar uma faculdade puramente racional, mas não o discernimento.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Questionário do filme - Orações para Bobby

Questionário do filme -"Orações para Bobby"
1. Qual era o conflito que BOBBY vivenciava?
2. Que expectativas a família tinha sobre ele?
3. Qual foi a reação da família ao saber que ele era “gay”?
4. De que maneira sua prima demonstrou apoio e compreensão?
5. Como a família de David, seu namorado, o tratava?
6. Por que BOBBY não aprofundava seu relacionamento com as garotas?
7. O que BOBBY registrava em seu diário?
8. De que maneira sua mãe tentou “curá-lo”?
9. Que tragédia ocasionou o preconceito e rejeição de sua família?
10. De que maneira a Comunidade Metropolitana (que acolhia os “gays”) demonstrou apoio à mãe de BOBBY?
11. Por que a mãe de BOBBY mudou?
12. Quais foram os resultados da mudança da mãe dele?
13. É possível curar a homossexualidade? Explique.
14. Qual é o perigo do fundamentalismo religioso (FANATISMO, cegueira) para os sentimentos das pessoas?
15. Qual foi a interpretação da igreja da mãe de BOBBY sobre a personalidade e desejos dele e o suicídio?
16. Interprete e relacione com o filme: "Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real. Mas, se a sociedade não pode igualar os que a natureza criou desiguais, cada um, nos limites da sua energia moral, pode reagir sobre as desigualdades nativas, pela educação, atividade e perseverança. Tal a missão do trabalho." (Rui Barbosa,1919)
17. Tendo como base a “Alegoria da caverna de Platão” e a situação que Bobby vivenciou, o que seria “a caverna”, e o “mundo fora da caverna”? Quais seriam as correntes e o instrumento de libertação? 18. Em determinada cena do filme, quando os dois irmãos estão na trilha do trem, após uma tentativa de desabafo de Bobby, seu irmão Ed diz : _ Você pensa demais. É perigoso, por isso evito a todo custo.” Observando esta situação e revendo seus conhecimentos de Filosofia, porque o pensamento é importante e quando é considerado perigoso pela sociedade? 19. Observe o texto e em seguida relacione-o ao filme: “Reconhecer que estamos errados, que nossas crenças não têm bom fundamento, significa renunciarmos à parte de nossa identidade. Questionar e rever crenças religiosas, ideologia e política, ideário profissional, etc, é algo gerador de crise de identidade. Desse modo, compreende-se que seja difícil para alguém abandonar suas crenças mais fortes. No entanto, é necessário ter essa predisposição de admitir que podemos estar errados, que nossas crenças podem não ter fundamento, que aquilo em que acreditávamos é, ao contrário do que pensamos, bem discutível ou falso. Um bom nome para essa predisposição é: coragem intelectual. De fato, a coragem é muitas vezes necessária para reconhecer-se, perante os outros e perante si próprio, como (redondamente) equivocados. Com efeito: o que vem a ser essa coisa que chamamos genericamente de coragem? Podemos dizer que ela consiste na predisposição para enfrentar resolutamente uma realidade adversa ou perigosa, de qualquer natureza que ela seja, em vez de fugir dela. Podemos dizer, então, que a coragem intelectual é a disposição de admitir para si mesmo a força de evidências contrárias às próprias crenças, o que é as vezes difícil.É preciso coragem para admitir erros, às vezes erros sobre todo um conjunto de crenças nossas. Por que é preciso coragem? Porque admiti-los – no interior de uma comunidade de interessados, composta por colegas e/ou estranhos – é, numa situação pública, declarar-se errado, e às vezes redondamente errado; ora, uma confissão mais ou menos pública de erros importantes, embora tenha seu lado meritório, é também, em diferentes graus, sempre penosa e diminuidora do auto-conceito.” (Coragem Intelectual para enfrentar preconceitos e estereótipos)
20. De que maneira você poderia contribuir mais efetivamente para o combate da homofobia?

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

QUESTÕES - ESCRITORES DA LIBERDADE

1)O que causa a desigualdade entre os alunos no filme e em nossa escola?
2) A ética da professora pode ser considerada deontológica? Porque? E de que maneira você pode contribuir para o desenvolvimento da ética na escola?
3) Compare o comportamento dos alunos no início do filme com ética dos estoicos.
4) Qual a causa do sentimento de identidade (união) entre os alunos?
5) Cite um momento do filme que você considera importante e explique qual a relação da ética com esse momento.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

QUESTÕES DO FILME - O NEVOEIRO

1. Após uma terrível tempestade, uma estranha névoa encobre uma pequena cidade. Criaturas ocultas no nevoeiro atacam as pessoas que saem as ruas. Um grupo fica preso em um supermercado e não pode sair do estabelecimento temendo ser atacado. A partir de então, começa uma luta sangrenta pela sobrevivência." Esta é a sinopse do filme “O Nevoeiro”. Descreva três personagens do filme destacando suas personalidades.
2. Em “O Nevoeiro” nem todos os que estão no supermercado acreditam na mesma coisa, apesar de estarem passando por circunstâncias semelhantes. Explique pelo menos duas posições sobre o acontecimento.
3. De que maneira o fanatismo religioso da Sra. Carmody é apresentado no filme?
4. Em meio a luta pela sobrevivência e os conflitos que ocorrem em meio ao desespero, comente sobre uma atitude de relevância ética apresentada no filme.
5. Ao aproximar-se o término do filme, “a origem do Nevoeiro misterioso” é explicada e um “desfecho surpreendente” é apresentado. Partindo da reflexão de “quem são os verdadeiros monstros” e “onde estava efetivamente o perigo” (fora ou dentro do supermercado) , explique estas quatro questões destacando também sua opinião.

QUESTÕES DO FILME "AS AVENTURAS DE PI"

1. "A fé é uma casa de muitos quartos", diz o já adulto Pi em determinado momento. COMENTE o sentido desta expressão tendo como base a mensagem do filme.
2. O pai de Pi era ateu e sua mãe religiosa. Como Pi conseguiu conciliar razão e fé em sua experiência?
3. Durante toda sua vida e principalmente após o naufrágio Pi teve de lidar com diversos conflitos, inclusive para poder sobreviver. Cite um desses conflitos, destacando uma postura ética empregada.
4. Durante um determinado momento no bote Pi afirma “ as palavras são tudo que eu tenho para me agarrar”. Qual o sentido desta expressão em sua luta pela sobrevivência?
5. Pi adulto diz para o escritor canadense que sua história o convencerá a acreditar em Deus. Então,usa duas versões do mesmo episódio para ilustrar duas abordagens com relação à realidade: uma mais coerente e lógica; outra mais fantástica e imaginativa. Ao final, ele pergunta qual é a “melhor história”. Em sua opinião, qual a melhor história e por que?

domingo, 16 de junho de 2013

TRABALHO DE RECUPERAÇÃO: 2ANO RENE DESCARTES - A MORAL PROVISÓRIA

A moral provisória René Descartes – Extraído do livro “Discurso do método” E enfim, como não basta, antes de começar a reconstruir a casa onde se mora, fazê-la demolir ou se ocupar a própria pessoa da arquitetura, além de ter cuidadosamente traçado o projeto, mas é preciso também arranjar outra onde comodamente se alojar enquanto durarem os trabalhos, assim eu, para não ficar em absoluto hesitante nas minhas ações enquanto a razão me obrigasse a sê-lo nos meus juízos e para não deixar de viver desde então do modo mais feliz possível, criei para mim uma moral provisória, consistindo somente de três ou quatro máximas, que gostaria de vos expor. A primeira era obedecer às leis e costumes do meu país, respeitando sempre a religião na qual Deus me deu a graça de ser educado desde a infância e me conduzindo em todas as outras coisas segundo as opiniões mais moderadas e mais afastadas do excesso que fossem comumente aceitas na prática pelos mais sensatos dentre aqueles com quem teria que viver. Pois, começando desde então por não considerar minhas próprias opiniões mais moderadas e mais afastadas do excesso que fossem comumente aceitas na prática pelos mais sensatos dentre aqueles com quem teria que viver, pois, começando desde então por não considerar minhas próprias opiniões como coisa alguma, pois queria recolocá-las todas em questão, estava seguro de não poder seguir outras melhores que as dos mais sensatos. E ainda que haja talvez gente tão sensata entre os persas ou chineses como entre nós, parecia-me que o mais útil era me comportar segundo aqueles com os quais teria que antes prestar atenção no que praticavam do que no que diziam; não apenas porque, com a corrupção dos nossos costumes, haja pouca gente disposta a dizer tudo aquilo em que acredita, mas também porque vários inclusive o ignoram; pois como a ação do pensamento pela qual se acredita numa coisa é diferente daquela pela qual se sabe que se acredita nessa coisa, uma existe com freqüência sem a outra. E entre várias opiniões igualmente aceitas eu só escolhia as mais moderadas; tanto porque são sempre as mais cômodas na prática e possivelmente as melhores, costumando todo excesso ser ruim, como também para me desviar menos do verdadeiro caminho, caso falhasse, do que se, escolhendo um dos extremos, devesse ter seguido o outro. E, particularmente, colocava entre os excessos todas as promessas pelas quais se cerceia a liberdade de alguma coisa. Não que desaprovasse as leis que para remediar a inconstância dos espíritos fracos permitem, quando se tem um bom propósito ou mesmo, para garantia do comércio, um propósito apenas indiferente, que se façam votos ou contratos que obrigam a perseverar nele; mas por não ver no mundo coisa alguma que permanecesse sempre no mesmo estado e, no meu caso particular, prometer aperfeiçoar cada vez mais meus juízos e não em absoluto piorá-los, pensaria estar cometendo uma grande falta contra o bom senso se, pelo fato de antes aprovar alguma coisa, fosse obrigado a tomá-la como boa mesmo depois que talvez tivesse deixado de sê-lo ou quando não mais a considerasse assim. Minha segunda máxima era de ser o mais firme e o mais decidido possível em minhas ações e de seguir as opiniões as mais duvidosas, uma vez me tivesse resolvido por elas, com a mesma constância que o faria se fossem muito seguras, imitando nisso os viajantes que, vendo-se perdidos numa floresta, não devem ficar dando voltas, a errar de um lado para o outro, e muito menos parar num lugar, mas caminhar sempre o mais reto possível numa mesma direção e não mudá-la de modo algum por motivos frágeis, mesmo que talvez de início apenas o acaso os tenha levado a escolhê-la: porque assim, se não vão exatamente aonde desejam, chegarão pelo menos afinal a algum lugar onde provavelmente estarão melhor que no meio de uma floresta. De forma que, não aceitando comumente as ações da vida nenhuma demora, é verdade bem certa que, se não estiver em nosso poder discernir as opiniões mais verdadeiras, devemos seguir as mais prováveis; e mesmo, ainda que não notemos mais probabilidade numas do que noutras devemos contudo nos decidir por algumas e considerá-las depois não mais como duvidosas, uma vez que dizem respeito à prática, mas como muito verdadeiras e certas, pois assim se considera a razão que nos fez optar por elas. E isso foi desde então capaz de me livrar de todos os remorsos e arrependimentos que costumam agitar as consciências desses espíritos fracos e vacilantes que se deixam levar com inconstância a praticar, como boas, coisas que julgam mais tarde serem más. Minha terceira máxima era tratar sempre de vencer a mim mesmo e não ao destino, mudando antes meus desejos que a ordem do mundo, e no geral me acostumar a crer que nada está inteiramente em nosso poder além dos nossos pensamentos; de modo que depois de ter dado o melhor de nós em coisas que nos são exteriores, tudo o que deixamos de conseguir é, no que nos diz respeito, absolutamente impossível. E isso já me parecia suficiente para impedir que desejasse no futuro nada que não conseguisse e para ficar dessa forma contente. Pois não se aplicando naturalmente nossa vontade a desejar senão as coisas que nosso entendimento lhe apresenta de alguma forma como possíveis, é certo que, se consideramos todos os bens exteriores a nós como igualmente distantes do nosso poder, não lamentaremos a falta daqueles que parecem devidos ao nosso nascimento, quando formos privados deles sem culpa nossa, mais do que lamentamos não possuir os reinos da China e do México; e fazendo da necessidade virtude, como se diz, não desejaremos ter saúde estando doentes ou ser livres estando presos, mais do que desejamos atualmente ter corpos de uma matéria tão pouco corruptível quanto o diamante ou asas para voar como os pássaros. Mas admito que é necessário um longo exercício e uma meditação persistente para se acostumar a encarar todas as coisas sob esse ângulo; e creio que era principalmente nisso que consistia o segredo desses filósofos que puderam outrora abstrair-se do império da fortuna e, apesar das dores e da pobreza, disputar felicidade aos seus deuses. Pois, ocupando-se incessantemente em considerar os limites que lhes eram prescritos pela natureza, persuadiram-se de modo tão perfeito que nada estava em seu poder além dos próprios pensamentos que só isso era suficiente para impedi-los de ter qualquer afeição por outras coisas; e dispunham deles de forma tão absoluta que tinham nisso alguma razão de se considerar mais ricos, mais poderosos, mais livres e mais felizes que quaisquer dos outros homens que, não tendo essa filosofia, por mais favorecidos que sejam pela natureza e a fortuna, jamais dispõem assim de tudo o que querem. Por fim, para conclusão dessa moral, decidi fazer um exame das diversas ocupações que têm os homens nesta vida e tentar escolher a melhor; e sem pretender dizer nada das ocupações dos outros, pensei que não podia fazer melhor que continuar aquela mesma em que estava, isto é, empregar toda a minha vida a cultivar a razão e avançar o máximo que pudesse no conhecimento da verdade, seguindo o método que me havia prescrito. Sentira alegrias tão extremas desde que começara a me servir desse método, que não acreditava poder ter outras mais doces nem mais inocentes nesta vida; e descobrindo todos os dias por meio dele algumas verdades que me pareciam bastante importantes e comumente ignoradas pelos outros homens, a satisfação que delas recebia preenchia de tal modo o meu espírito, que todo o resto não me importava. Além disso, as três máximas precedentes só se fundavam no propósito de continuar a me instruir, pois tendo Deus dado a cada um de nós certa luz para distinguir o verdadeiro do falso, não teria jamais acreditado dever contentar-se um só momento com as opiniões alheias, se não me houvesse proposto empregar o meu próprio juízo em examiná-las no momento oportuno; e não teria podido livrar-me dos escrúpulos ao segui-las, se não tivesse esperado não perder por isso nenhuma ocasião de encontrar outras melhores, caso houvesse; e enfim, não teria podido limitar meus desejos nem estar contente, se não tivesse seguido um caminho pelo qual, pensando estar certo da aquisição de todos os conhecimentos de que seria capaz, não julgasse estar, pelo mesmo meio, certo da aquisição de todos os verdadeiros bens que jamais estivessem em meu poder; pois, não se inclinando a nossa vontade nem a seguir alguma coisa nem a fugir dela senão na medida em que nosso entendimento represente como boa ou má, basta bem julgar para fazer bem, e julgar o melhor que pudermos fazermos também o melhor possível isto é, para adquirimos todas as virtudes e, ao mesmo tempo, todos os outros bens que possamos adquirir; e quando estamos certos de que assim é, não podemos deixar de estar contentes. QUESTÕES
1.Que paralelo Descartes fez entre a reconstrução da casa e a moral provisória?
2. Que razões Descartes concebeu de que o mais útil era se “comportar segundo aqueles com os quais teria que antes prestar atenção no que praticavam do que no que diziam”?
3. Por que é mais vantajoso “se não estiver em nosso poder discernir as opiniões mais verdadeiras, e seguir as mais prováveis”?
4. O que Descartes quer dizer quando afirma que “é preciso antes vencer a si mesmo do que ao destino”?
5. Por que é essencial empregar a vida no cultivo da razão e no avanço do conhecimento da verdade?

terça-feira, 28 de maio de 2013

TRABALHO DE FILOSOFIA 2° BIMESTRE - 2° ANO DO ENSINO MÉDIO

TRABALHO DE FILOSOFIA – 2º ano do Ensino Médio
I - A causa do erro e como evitá-lo Excerto do livro “Meditações Metafísicas”(Quarta meditação),do filósofo René Descarte. “E, em seguida, olhando-me de mais perto e considerando quais são meus erros ( que apenas testemunham haver imperfeição em mim), descubro que dependem do concurso de duas causas, a saber, do poder de conhecer que existe em mim e do poder de escolher, ou seja, meu livre-arbítrio; isto é, de meu entendimento e conjuntamente de minha vontade. Isso porque só pelo entendimento não asseguro nem nego coisa alguma, mas apenas concebo as idéias das coisas que posso assegurar ou negar. Ora, considerando-o assim precisamente, pode-se dizer que jamais encontraremos nele erro algum, desde que se torne a palavra “erro” em sua significação própria. E, ainda que haja talvez uma infinidade de coisas neste mundo das quais não tenho idéias alguma em meu entendimento, não se pode por isso dizer que ele seja privado dessas idéias como de algo que seja devida à sua natureza, mas somente que não as tem; porque, com efeito, não há razão alguma capaz de provar que Deus devesse dar-me uma faculdade de conhecer maior e mais ampla do que aquela que me deu; e, por hábil e engenhoso operário que eu mo represente, nem por isso devo pensar que devesse pôr em cada uma de suas obras todas as perfeições que pôde pôr em algumas. Tampouco posso me lastimar de que Deus não me tenha dado um livre-arbítrio ou uma vontade bastante ampla e perfeita, visto que, com efeito, eu a experimento tão vaga e tão extensa que ela não está encerrada em quaisquer limites. (...) De tudo isso reconheço que nem o poder da vontade, o qual recebi de Deus, é em si mesmo a causa de meus erros, pois é muito amplo e muito perfeito na sua espécie;nem tampouco o poder de entender ou de conceber: pois, nada concebendo senão desse poder que Deus me conferiu para conceber, não há duvida de que tudo o que concebo, concebo como é necessário e não é possível que nisso me engane. Donde nascem, pois meus erros? A saber, somente de que, sendo a vontade muito mais ampla e extensa que o entendimento, eu não a contenho nos mesmos limites, mas estendo-a também às coisas que não entendo; das quais, sendo a vontade por si indiferente, ela se perde muito facilmente e escolhe o mal pelo bem ou o falso pelo verdadeiro. O que faz com que eu me engane e peque.(...) Ora, se me abstenho de formular meu juízo sobre uma coisa, quando não a concebo com suficiente clareza e distinção, e evidente que utilizo muito bem e que não estou enganado; mas, se me determino a negá-la ou a assegurá-la, então não me sirvo como devo de meu livre-arbítrio; se garanto o que não é verdadeiro, é evidente que me engano, e até mesmo, ainda que julgue segundo a verdade, isso não ocorre senão por acaso e eu não deixo de falhar e de utilizar mal o meu livre-arbítrio; pois a luz natural nos ensina que o conhecimento do entendimento deve sempre preceder a determinação da vontade.”
Responda as questões:
1. O que testemunham os erros de Descartes? 2. Do concurso de quais causas depende o erro? 3. O que é concebido pelo entendimento? 4. A natureza do nosso entendimento é limitada ou ilimitada? Justifique com um trecho do texto. 5. A natureza da nossa vontade é limitada ou ilimitada? Justifique com um trecho do texto. 6. Explique onde nascem os erros. 7. Como usamos mal nosso livre arbítrio?
II - Cérebro numa cuba “Não tenho corpo. Tudo o que sou é um cérebro a flutuar numa cuba de produtos químicos. Um cientista perverso ligou de tal forma fios ao meu cérebro que tenho a ilusão da experiência sensorial. O cientista criou uma espécie de máquina de experiências. Do meu ponto de vista, posso levantar-me e dirigir-me à loja para comprar um jornal. Contudo, quando faço isto, o que está realmente acontecendo é que o cientista está estimulando certos nervos do meu cérebro de maneira a que eu tenha a ilusão de fazer isto. Toda a experiência que penso provir dos meus cinco sentidos é na verdade o resultado do que este cientista perverso esta estimulando no meu cérebro desencarnado. Com esta máquina de experiências o cientista pode fazer com que eu tenha qualquer experiência sensorial que poderia ter na vida real. Através de um estímulo complexo dos nervos do meu cérebro o cientista pode dar-me a ilusão de estar assistindo televisão, correndo numa maratona, escrevendo um livro, comendo massa ou qualquer outra coisa que eu poderia fazer.” (Nigel Warburton, Elementos básicos de Filosofia, 2ª edição, Lisboa, 2007, pág. 158.) A história do cérebro numa cuba é uma experiência mental, tal como imaginar que a vida é um sonho ou a hipótese do Génio Maligno, de Descartes. Essas experiências mentais sugerem que podemos estar muito enganados em relação ao mundo e a nós próprios e que o conhecimento que julgamos ter é, afinal, uma ilusão. Claro que não acreditamos que as coisas se passem dessem modo: acreditamos que as coisas são realmente semelhantes ao modo como as percebemos e acreditamos que temos realmente conhecimento. Acreditamos - mas será que sabemos? Sabemos que a nossa vida é real e não uma ilusão ou apenas acreditamos nisso, tal como algumas pessoas acreditam em Deus e outras que vão ganhar a lotaria? É que para saber algo não basta ter uma crença – no mínimo, é também necessário que a crença seja verdadeira e esteja justificada. Como podemos justificar a nossa crença de que a vida não é um sonho ou que não somos apenas cérebros numa cuba iludidos por um cientista perverso qualquer? Responda com base nas aulas ministradas sobre René Descartes.
III - O PEDAÇO DE CERA “Tomemos [...] este pedaço de cera que acaba de ser tirado da colméia: ele não perdeu ainda a doçura do mel que continha, retém ainda algo do odor das flores de que foi recolhido; sua cor, sua figura, sua grandeza, são patentes; é duro, é frio, tocamo-lo e, se nele batermos, produzirá algum som. Enfim, todas as coisas que podem distintamente fazer conhecer um corpo encontram-se neste. Mas eis que, enquanto falo, é aproximado do fogo: o que nele restava de sabor exala-se, o odor se esvai, sua cor se modifica, sua figura se altera, sua grandeza aumenta, ele torna-se líquido, esquenta-se, mal o podemos tocar e, embora nele batamos, nenhum som produzirá. A mesma cera permanece após essa modificação? Cumpre confessar que permanece: e ninguém o pode negar. O que é, pois, que se conhecia deste pedaço de cera com tanta distinção? Certamente não pode ser nada de tudo o que notei nela por intermédio dos sentidos, visto que todas as coisas que se apresentavam ao paladar, ao olfato, ou à visão, ou ao tato, ou à audição, encontravam-se mudadas e, no entanto, a mesma cera permanece.” (DESCARTES, René. Meditações. Trad. De Jacó Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 272.) Com base no texto, é correto afirmar que para Descartes: a) Os sentidos nos garantem o conhecimento dos objetos, mesmo considerando as alterações em sua aparência. b) A causa da alteração dos corpos se encontra nos sentidos, o que impossibilita o conhecimento dos mesmos. c) A variação no modo como os corpos se apresentam aos sentidos revela que o conhecimento destes excede o conhecimento sensitivo. d) A constante variação no modo como os corpos se apresentam aos sentidos comprova a inexistência dos mesmos. e) A existência e o conseqüente conhecimento dos corpos têm como causa os sentidos.
IV - O mundo de Sofia De Jostein Gaarder Cia. das Letras, São Paulo, 1998 -Tradução de João Azenha Jr. - Capítulo 18 (Excerto) –Descartes -(Páginas 252-262.) Alberto levantou-se, tirou a capa vermelha, colocou-a sobre uma cadeira e acomodou-se novamente no sofá. — René Descartes nasceu em 1596 e durante toda a sua vida viajou muito pela Europa. Ainda jovem, ele manifestou o desejo fervoroso de conhecer a natureza do homem e do universo. Mas, depois de estudar filosofia, conscientizou-se sobretudo de sua própria ignorância. — Mais ou menos como Sócrates? — Mais ou menos. Também como Sócrates, ele estava convencido de que a razão era o único meio de se chegar a um conhecimento seguro. Não devemos confiar no que lemos em livros antigos e não podemos confiar sequer no que os nossos sentidos nos dizem. — Platão também achava a mesma coisa. Ele dizia que só por meio da razão podíamos chegar a um conhecimento seguro. — Exatamente. De Sócrates e Platão parte uma linha direta até Descartes, passando por santo Agostinho. Todos eles eram racionalistas convictos. Para eles, a razão era a única fonte segura de conhecimento. Depois de muito estudar, Descartes chegou à conclusão de que não podia confiar muito no conhecimento herdado da Idade Média. Nesse sentido, talvez possamos compará-lo a Sócrates, que não confiava nas idéias amplamente difundidas em sua época pelas ruas de Atenas. O que fazer num caso desses, Sofia? Você pode me dizer? — A gente tem de começar a criar a sua própria filosofia. — Exatamente. Descartes decidiu percorrer toda a Europa, assim como Sócrates, em sua época, passou a vida conversando com as pessoas em Atenas. O próprio Descartes conta que seu objetivo passou a ser a procura por um conhecimento que ele podia encontrar dentro de si mesmo ou “no grande livro do mundo”. (...) Descartes, porém, estabeleceu este ponto como o marco zero para a sua reflexão. Ele chegou à conclusão de que a única coisa sobre a qual podia ter certeza era a de que duvidava de tudo. E foi então que compreendeu o seguinte: se havia um fato de que ele podia ter certeza, este fato era o de que ele duvidava de tudo. Se ele duvidava, isto significava que ele pensava. E se ele pensava, isto significava que ele era um ser pensante. Ou, como ele mesmo dizia: “Cogito, ergo sum”. — E o que significa isto? — Penso, logo existo. — Não me surpreende nada que ele tenha chegado a esta conclusão. — Pode ser. Mas note bem com que certeza intuitiva ele de repente se percebe como um ser pensante. Talvez você ainda se lembre de que Platão considerava mais real a existência daquilo que percebemos com nossa razão do que daquilo que percebemos com nossos sentidos. Para Descartes era a mesma coisa. Ele não apenas entende que é um Eu pensante, mas entende, ao mesmo tempo, que este Eu pensante é mais real do que o mundo físico que percebemos através de nossos sentidos. E a partir daí ele vai mais adiante, Sofia. Descartes está longe de concluir sua pesquisa filosófica. — Então vamos continuar… — Descartes pergunta-se, então, se esta mesma certeza intuitiva pode levá-lo a saber mais do que o fato de que é um ser pensante. Ele reconhece que também possui uma clara e nítida idéia do que seja um ser perfeito. Trata-se de uma idéia que ele sempre teve e para Descartes é evidente que tal noção não poderia vir dele próprio. Descartes afirmava que a noção do que fosse um ser perfeito não poderia brotar espontaneamente de um ser imperfeito. Assim, a noção de um ser perfeito tinha de vir, naturalmente, de outro ser perfeito. Em outras palavras: tinha de vir de Deus. Para Descartes, portanto, a existência de Deus é algo tão evidente quanto o fato de que alguém que pensa é um ser, um Eu pensante. — Acho que agora ele está sendo um pouco precipitado ao tirar suas conclusões. Ele que, no começo, tinha sido tão cuidadoso! — É verdade. Muitos chegaram mesmo a apontar isto como sendo justamente o ponto mais fraco de Descartes. Mas você disse “conclusões”. Na verdade, não se trata aqui se provar coisa alguma. Descartes está dizendo apenas que todos nós temos uma idéia do que seja um ser perfeito e que nesta própria idéia está embutido o fato de que este ser perfeito deve existir. Pois um ser perfeito não seria perfeito se não existisse. Além disso, não teríamos uma idéia do que seja um ser perfeito se tal ser não existisse. Isto porque somos imperfeitos e, por isso, a idéia de perfeição não pode brotar de nós mesmos assim, espontaneamente. A idéia de um Deus é, segundo Descartes, uma idéia inata, que nos é “plantada”, por assim dizer, no momento em que nascemos, “como a marca que o artista coloca em sua obra”, conforme ele mesmo escreve. — Mas mesmo que eu tenha uma idéia do que possa ser um crocofante, isto não significa que existam crocofantes. — Descartes teria dito que a existência de um crocofante não é inerente ao conceito “crocofante”, ao passo que a existência de um ser “perfeito” é inerente ao conceito de “ser perfeito”. Para Descartes, isto é tão certo quanto é inerente à própria idéia de um círculo o fato de todos os pontos deste círculo estarem à mesma distância de seu centro. Você não pode estar falando de um círculo, portanto, se a figura sobre a qual você fala não atender a esta premissa. Da mesma forma, você não pode falar de um ser perfeito se a ele falta a mais importante de todas as características: a existência. — Mas esta é uma forma muito especial de pensar. — Esta é uma forma de pensar marcadamente “racionalista”. Como Sócrates e Platão, Descartes via uma relação entre o pensamento e a existência. Quanto mais evidente uma coisa é para o pensamento, tanto mais certo é o fato de ela existir. — Bem, até agora ele reconheceu que é um ser pensante e que existe um ser perfeito. — E a partir daí ele prossegue. Todas as noções que temos da realidade exterior, como o Sol e a Lua, por exemplo, poderiam não passar de imagens oníricas. Mas a realidade exterior também possui características que podemos conhecer por meio de nossa razão. Por exemplo, as relações matemáticas, ou seja, o que pode ser medido: comprimento, largura e profundidade. Essas propriedades quantitativas são tão evidentes para a razão quanto o fato de que sou um ser pensante. Já as propriedades qualitativas, tais como cor, odor e sabor, estão relacionadas aos nossos sentidos e não descrevem, na verdade, uma realidade exterior. — Quer dizer que a natureza não passa de um sonho? — Não, e neste ponto Descartes retoma nossa idéia de um ser perfeito. Quando nossa razão reconhece alguma coisa com clareza e nitidez, isto significa que a coisa reconhecida corresponde exatamente à forma como nossa razão a percebeu. Pois um Deus perfeito não iria querer nos pregar peças. Descartes invoca a “garantia de Deus” para o fato de que tudo aquilo que reconhecemos por meio de nossa razão corresponde a uma realidade. — Muito bem. Então ele já chegou à conclusão de que é um ser pensante, de que Deus existe e de que também existe uma realidade exterior. — Só que entre a realidade exterior e a realidade dos pensamentos existe uma diferença fundamental. Descartes pode, então, tomar como ponto de partida o fato de que existem duas formas distintas de realidade, ou duas substâncias. A primeira substância é o pensamento, ou a alma, a outra é a extensão, ou a matéria. A alma é consciência pura, não ocupa lugar no espaço e, portanto, não pode ser decomposta em unidades menores. A matéria, ao contrário, é só extensão, ocupa lugar no espaço e pode por isso ser decomposta em partes menores, mas não possui consciência. Descartes diz que ambas as substâncias provêm de Deus, pois só Deus existe independentemente de qualquer outra coisa. Mas ainda que pensamento e extensão provenham de Deus, trata-se de duas substâncias completamente independentes uma da outra. O pensamento é livre na sua relação com a matéria, e vice-versa: os processos materiais também operam de forma totalmente independente. — E assim a criação de Deus foi dividida por dois. — Exatamente. Chamamos Descartes de dualista, o que significa que ele estabelece uma nítida linha divisória entre a realidade material e a espiritual. Por exemplo, só o homem tem uma alma. Os animais pertencem completamente à realidade material. Sua vida e seus movimentos são absolutamente mecânicos. Descartes considerava os animais uma espécie de máquinas complicadas. Também no que se refere à realidade material, portanto, sua noção de realidade era absolutamente mecanicista. Exatamente como os materialistas. — Duvido muito que meu cachorro Hermes não passe de uma máquina ou de uma espécie de robô. Certamente Descartes não gostou nunca de um animal. E nós? Também nós somos autômatos? — Sim e não. Descartes chegou à conclusão de que o homem é um ser dual, que tanto pensa quanto ocupa lugar no espaço. O homem possui, portanto, uma alma e um corpo físico. Santo Agostinho e são Tomás de Aquino já haviam formulado algo parecido. Eles acreditavam que o homem possuía um corpo, como os animais, mas também um espírito, como os anjos. Descartes considerava o corpo humano o resultado de uma mecânica arrojada. Tecnologia de ponta, como diríamos hoje. Mas o homem possui também uma alma capaz de operar independentemente de seu corpo. Os processos do corpo não possuem tal liberdade, pois obedecem às suas próprias leis. Mas aquilo que percebemos com nossa razão não acontece no corpo, e sim na alma, na mente, independentemente da realidade material — Já conversamos sobre isso. Quando decido correr até o ônibus, toda a “máquina” se põe em movimento. E se apesar disso perco o ônibus, começo a chorar. — Nem mesmo Descartes podia contestar o fato de que quase sempre ocorre uma interação entre alma e corpo. Para ele, enquanto a alma habita o corpo ela está ligada a ele por um órgão muito especial, uma glândula localizada no cérebro, dentro da qual ocorre esta constante interação entre espírito e matéria. Assim, para Descartes, a alma era constantemente perturbada por sentimentos e sensações que tinham a ver com as necessidades do corpo. Mas o objetivo deve ser entregar à alma o controle de tudo, pois, independentemente de serem fortes minhas dores de barriga, a soma dos ângulos de um triângulo será sempre de 180º. Desta forma, o pensamento pode se elevar para além das necessidades do corpo e se comportar “racionalmente”. Deste ponto de vista, a alma é totalmente independente do corpo. Nossas pernas podem envelhecer e se tornar fracas, nossas costas podem se curvar e nossos dentes começar a cair, mas a soma de dois mais dois será sempre quatro, enquanto em nós restar um lampejo de razão. Pois a razão não envelhece nem se debilita. Nosso corpo, ao contrário, sim. Para Descartes, a alma é a própria razão. Os afetos e sensações menos elevados, tais como desejo e ódio, estão intimamente ligados às funções do corpo e, portanto, a uma realidade material. — Não consigo aceitar com facilidade o fato de Descartes comparar o corpo com uma máquina ou com um autômato. — O motivo desta comparação é o fato de que na época de Descartes as pessoas estavam totalmente fascinadas pelas máquinas e pelas engrenagens dos relógios, que pareciam funcionar sozinhos. A palavra “autômato” designa exatamente alguma coisa que se movimenta por si mesma. Só que é claro que o fato de elas funcionarem por si mesmas não passava de uma ilusão. Um relógio astronômico, por exemplo, é construído e recebe corda das mãos do homem. Descartes dizia que tais aparelhos artificiais eram constituídos simplesmente por algumas poucas peças, se comparados com a quantidade de ossos, músculos, nervos, artérias e veias de que se compõe o corpo de homens e animais. Por que, então, Deus não seria capaz de construir o corpo de homens e animais com base em leis mecânicas? — Hoje em dias muitas pessoas falam da “inteligência artificial”. — Sim, elas estão pensando nos autômatos de nossa época. Construímos máquinas que às vezes realmente nos convencem de sua inteligência. Tais máquinas certamente teriam colocado em pânico o nosso Descartes. Talvez ele tivesse se perguntado se a razão humana seria realmente tão livre e independente quanto ele pensava. Pois há filósofos que consideram a vida da alma humana tão pouco livre quanto os processos do corpo. É claro que a alma de uma pessoa é infinitamente mais complicada do que qualquer programa de computador, mas há os que acham que em princípio somos tão dependentes quanto tais programas. 1.Que paralelos há entre Sócrates e Descartes? 2. Explique a expressão “penso, logo existo”. 3. Como Descartes provou a existência de Deus? 4.O que significa ser “dualista”? 5.O que pensava Descartes acerca dos animais? 6.Que significa o homem ser “dual”? 7.De que maneira o corpo pode ser comparado as maquinas e engrenagens do relógio?
V – Termo do Dicionário Descartes "OPINIÕES PRECONCEBIDAS: Descartes utiliza essa expressão quase como um termo técnico(em latim, praejudicia, literalmente "preconceitos"), para referir-se ao lastro de crenças, amiúde irrefletidas, que todos trazemos conosco antes de comerçamos a pensar filosoficamente. "Uma vez que começamos a vida como criançase fizemos vários juízos acerca das coisas perceptiveis pelos sentidos antes de dispormos do uso da razão, existem muitas opiniões preconcebidas que nos impedem de conhecer a verdade...O único meio de nos livrarmos dessas opiniões é tomar a iniciativa de duvidar , uma vez no curso da vida,de tudo aquilo que notarmos a menos suspeita de incerteza"(Princípios de filosofia). Os dois grandes elementos geradores de opiniões preconcebidas são, para Descartes, primeiramente a confiança na tradição e na autoridade em lugar do uso natural que trazemos em nós."(A busca da verdade)e, em segundo lugar,os produtos dos sentidos, que frequentemente, demonstram não ser confiáveis(Primeira Meditação). A elminação das ideias preconcebidas é o primeiro passo no projeto cartesiano para a construção de um novo edifício de Conhecimento confiável." (Dicionário Descartes, John Cottingham, Jorge Zahar Editor) 1.A que se refere Descartes quando utiliza a expressão “opiniões preconcebidas”? 2.Qual a única maneira de se livrar das opiniões preconcebidas? 3.Quais os dois elementos geradores das opiniões preconcebidas? 4.Qual o primeiro passo no projeto cartesiano para a construção de um novo edifício de conhecimento confiável?

domingo, 19 de maio de 2013

QUESTÕES DO FILME INTOCÁVEIS

1. Que contrastes podemos observar entre Philippe e Driss?
2. Por que Philippe contratou Driss e acabou gostando muito de seu trabalho de assistente pessoal?
3. De que maneira o trabalho com Philippe mudou a vida de Driss?
4. Que valor ou valores éticos são mostrados no filme? Justifique.
5. Conforme o filme, como podemos lidar com as “diferenças” e encarar nossos “limites”?

Questões do filme “O Primeiro Mentiroso”

1. O que levou Mark a inventar a primeira mentira?
2. De que maneira a mentira se fez necessária para melhorar aquele mundo?
3. Qual o problema de um mundo onde só se fala a verdade?
4. Qual o papel da religião para aquelas pessoas?
5. Ao final do filme “O Mentiroso” de Jim Carrey a verdade é vista como a melhor política. Diferente deste, como conclui o filme “O Primeiro Mentiroso”?

quinta-feira, 25 de abril de 2013

RECUPERAÇÃO DO 2° ANO: RENE DESCARTES
Fazer em folha de almaço, colocando Nome, Número e Série.
• Pesquisar sobre René Descartes para responder as questões.
1- Qual o sentido do cogito cartesiano?
2- Qual a função da glândula pineal?
3- Quais as diferenças entre alma e corpo?
4- Escreva os conceitos de: a) Razão. b) Juízo. c) Percepção. d) Memória. e) Imaginação.
5- Comente sobre o método cartesiano conforme o livro ''O Discurso do Método''.

terça-feira, 19 de março de 2013

Questões do filme Matrix

1.O que é Matrix? O que representa a “Matrix” na alegoria da caverna de Platão(que mundo?). Que semelhanças há entre a Matrix e a caverna de Platão? De que maneira Neo saiu de Matrix e de que maneira podemos sair da caverna? Porque Neo voltava a Matrix e porque devemos voltar a caverna?
2.Uma das discussões filosóficas do filme é a relação do ser humano com o meio ambiente, na cena em que Morpheus encontra-se prisioneiro do Agente Smith, este revela que, ao tentar classificar a raça humana, fez uma descoberta surpreendente: ele sustenta que nós, seres humanos, não somos mamíferos, porque não entramos em equilíbrio com o meio ambiente. Ao contrário dos mamíferos, nós nos mudamos para uma área e nos multiplicamos até consumirmos todos os recursos naturais para depois, mudar novamente para outra. Segundo o Agente Smith, o "outro organismo neste planeta que segue o mesmo padrão" é um "vírus". Identificando as necessidades do ser humano, constatando o desprezo por alguns com o meio ambiente qual argumentação você daria, no lugar do personagem Morpheus para contradizer ou apoiar a afirmação do agente Smith?
3.O herói é alguém que larga a segurança de sua terra ou família e parte em busca de algo difícil e precioso, enfrentando incertezas, sofrimentos, perigos e arriscando a própria vida para, no fim, retornar transformado e vitorioso, mais forte, experiente e seguro, para guiar ou salvar seu povo, casar-se com a princesa ou substituir um velho rei injusto ou doente. Analisando o que buscava o personagem Neo ao optar pela pílula vermelha, comente a mensagem passada pelo filme relacionando com as opções que fazemos diariamente, somos impulsionados a buscar as mudanças por estar-mos insatisfeitos com a realidade, ou a realidade nos cobra a busca pelas mudanças? Justifique.
4.Embora a Matrix tenha sido programada para lutar ferrenhamente contra todos os que a desafiam, a Inteligência Artificial sabia que mais cedo ou mais tarde o Predestinado sempre surgiria. Assim, restou lidar com ele da melhor forma possível: se não pode com seu inimigo, una-se a ele. As máquinas talvez jamais consigam decifrar, calcular e prever o amor, essa força tão imensa, poderosa, insana e contraditória, essa equação tão desequilibrada e imprevisível. Qual a relação passada no filme entre a rigidez da Matrix e o amor de Trinity por Neo, de Morpheu pela raça humana, entre outros? Podemos atribuir o responsável como sendo "a falta de amor" que levou Cypher a trair seus amigos?
5.Que semelhanças há entre Sócrates e Neo?

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

2 ANO DO EM - Questões do filme: Efeito Borboleta

1.Preencha com informações técnicas:
Direção:
Roteiro:
Gênero:
Origem:
Duração:
2. Cite o nome de três personagens centrais.
3. De quem o protagonista herdou sua capacidade de viajar no tempo?
4. Que situação de pedofilia ocorre no filme?
5. Por mais que volte no tempo o protagonista acaba percebendo que alguém sai perdendo, que solução ele encontrou no final do filme para evitar um caos maior?
6. Se você pudesse voltar no tempo o que mudaria em sua vida?
7. Que valor(es) determinou(am) as atitudes de Evan? Você concorda? Justifique.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O que é Ética?

Há ciências que estudamos por simples interesse de saber coisas novas; outras, para adquirir uma habilidade que nos permita fazer ou utilizar alguma coisa; a maioria, para conseguir um trabalho e ganhar a vida com ele. Se não sentirmos curiosidade nem necessidade de realizar esses estudos, poderemos prescindir deles tranqüilamente. Há uma infinidade de conhecimentos muito interessantes mas sem os quais podemos nos arranjar muito bem para viver. Eu, por exemplo, lamento muito não ter nem idéia de astrofísica ou de marcenaria, que dão tanta satisfação a outras pessoas, embora essa ignorância nunca me tenha impedido de ir sobrevivendo até hoje. E você, se não me engano, conhece as regras do futebol mas é bem fraco em beisebol. Não tem maior importância, você desfruta os campeonatos mundiais, dispensa olimpicamente a liga americana e todo o mundo sai satisfeito. O que eu quero dizer é que certas coisas a pessoa pode aprender ou não, conforme sua vontade. Como ninguém é capaz de saber tudo, o remédio é escolher e aceitar com humildade o muito que ignoramos. É possível viver sem saber astrofísica, marcenaria, futebol e até mesmo sem saber ler e escrever: vive-se pior, decerto, mas vive-se. No entanto, há outras coisas que é preciso saber porque, por assim dizer, são fundamentais para nossa vida. É preciso saber, por exemplo, que saltar de um balcão do sexto andar não é bom para a saúde; ou que uma dieta de pregos (perdoem-me os faquires!) e ácido prússico não nos permitirá chegar à velhice. Também não é aconselhável ignorar que, se dermos um safanão no vizinho cada vez que cruzarmos com ele, mais cedo ou mais tarde haverá conseqüências muito desagradáveis. Pequenezas desse tipo são importantes. Podemos viver de muitos modos, mas há modos que não nos deixam viver.Em resumo, entre todos os saberes possíveis existe pelo menos um imprescindível: o de que certas coisas nos convêm e outras não. Certos alimentos não nos convém, assim como certos comportamentos e certas atitudes. Quero dizer, é claro, que não nos convém se desejamos continuar vivendo. Se alguém quiser arrebentar-se o quanto antes, beber lixívia poderá ser muito adequado, ou também cercar-se do maior número possível de inimigos. Mas, de momento, vamos supor que preferimos viver, deixando de lado, por enquanto, os respeitáveis gostos do suicida. Assim, há coisas que nos convêm, e o que nos convém costumamos dizer que é "bom", pois nos cai bem; outras, em compensação, não nos convém, caem-nos muito mal, e o que não nos convém dizemos que é "mau". Saber o que nos convém, ou seja, distinguir entre o bom e o mau, é um conhecimento que todos nós tentamos adquirir - todos, sem exceção - pela compensação que nos traz. Como afirmei antes, há coisas boas e más para a saúde: é necessário saber o que devemos comer, ou que o fogo às vezes aquece e outras vezes queima, ou ainda que a água pode matar a sede e também nos afogar. No entanto, às vezes as coisas não são tão simples: certas drogas, por exemplo, aumentam nossa energia ou produzem sensações agradáveis, mas seu abuso contínuo pode ser nocivo. Em alguns aspectos são boas, mas em outros são más: elas nos convém e ao mesmo tempo não nos convém. No terreno das relações humanas, essas ambigüidades ocorrem com maior freqüência ainda. A mentira é, em geral, algo mau, porque destrói a confiança na palavra - e todos nós precisamos falar para viver em sociedade - e provoca inimizade entre as pessoas; mas às vezes pode parecer útil ou benéfico mentir para obter alguma vantagem, ou até para fazer um favor a alguém. Por exemplo, é melhor dizer ao doente de câncer incurável a verdade sobre seu estado, ou deve-se enganá-lo para que ele viva suas últimas horas sem angústia? A mentira não nos convém, é má, mas às vezes parece acabar sendo boa. Procurar briga com os outros, como já dissemos, em geral é inconveniente, mas devemos consentir que violentem uma garota diante de nós sem interferir, sob pretexto de não nos metermos em confusão? Por outro lado, quem sempre diz a verdade - doa a quem doer - costuma colher a antipatia de todo o mundo; e quem interfere ao estilo Indiana Jones para salvar a garota agredida tem maior probabilidade de arrebentar a cabeça do que quem segue para casa assobiando. O que é mau às vezes parece ser mais ou menos bom e o que é bom tem, em certas ocasiões, aparência de mau. Haja confusão! Saber viver não é tão fácil, pois é preciso lidar com diversos critérios opostos. Em matemática ou geografia, há sábios e ignorantes, mas os sábios estão quase sempre de acordo quanto ao fundamental. No viver, por outro lado, as opiniões estão longe de ser unânimes. Se alguém prefere levar uma vida emocionante, pode dedicar-se aos carros de Fórmula l ou ao alpinismo; mas quem preferir uma vida segura e tranqüila fará melhor em buscar as aventuras no videoclube da esquina. Alguns garantem que o mais nobre é viver para os outros, mas há pessoas que acham que o mais útil é conseguir que os outros vivam para elas. Segundo certas opiniões, o que conta é ganhar dinheiro e nada mais, ao passo que outros afirmam que o dinheiro sem saúde, tempo livre, afeto sincero ou serenidade nada vale. Médicos respeitáveis mostram que renunciar ao fumo e ao álcool é um meio seguro de prolongar a vida, e os fumantes e bêbados respondem que com essas privações sua vida logo se tornaria muito mais frouxa. E assim por diante. À primeira vista, a única coisa com que todos nós concordamos é que não concordamos com todos. Mas observe que também essas opiniões diferentes coincidem em outro ponto, ou seja, nossa vida é, pelo menos em parte, resultado daquilo que queremos. Se nossa vida fosse algo inteiramente determinado e fatal, irremediável, todas estas considerações não teriam o menor sentido. Ninguém discute sobre se as pedras devem cair para baixo ou para cima: elas caem para baixo e ponto final. Os castores fazem diques nos rios e as abelhas favos de alvéolos hexagonais: não há castores que tentem fazer alvéolos de favo nem abelhas que se dediquem à engenharia hidráulica. Em seu meio natural, cada animal parece saber perfeitamente o que é bom e o que é mau para ele, sem discussões ou dúvidas. Não há animais maus nem bons na natureza, embora talvez a mosca considere má a aranha que tece sua teia e a devora. Mas para a aranha isso é inevitável... Vou lhe contar um caso dramático. Você conhece as térmitas, aquelas formigas brancas que, na África, constroem formigueiros impressionantes, de vários metros de altura e duros feito pedra. Como o corpo das térmitas é mole, por não ter a couraça de quitina que protege outros insetos, o formigueiro tem a função de uma grande carapaça coletiva que as defende contra certas formigas inimigas mais bem armadas do que elas. Mas às vezes um desses formigueiros desmorona por causa de uma inundação ou de algum elefante (os elefantes gostam de se coçar esfregando os flancos contra os termiteiros - o que fazer?). Logo as térmitas-operárias põem-se a trabalhar para reconstruir depressa a fortaleza danificada. E as grandes formigas inimigas lançam-se ao ataque. As térmitas-soldados saem para defender sua tribo, tentando deter as inimigas. Como não podem competir com elas nem em tamanho nem em armamentos, dependuram-se nas atacantes tentando frear sua marcha, e vão sendo despedaçadas pelas mandíbulas das inimigas. As operárias trabalham celeremente para voltar a fechar o termiteiro ruído... mas fecham-no deixando fora as pobres e heróicas térmitas-soldados, que sacrificam suas vidas pela segurança das outras. Será que elas não merecem pelo menos uma medalha? Não é justo dizer que são valentes! Muda o cenário, mas não o tema. Na Iliada, Homero conta a história de Heitor, o melhor guerreiro de Tróia, que, fora das muralhas de sua cidade, espera obstinadamente por Aquiles, o enfurecido herói dos aqueus, mesmo sabendo que este é mais forte e provavelmente irá matá-lo. Heitor faz isso para cumprir seu dever, que consiste em defender sua família e seus concidadãos do terrível atacante. Ninguém duvida de que Heitor é um herói, um autêntico valente. Mas não será Heitor heróico e valente do mesmo modo que as térmitas-soldados, cuja gesta milhões de vezes repetida nenhum Homero preocupou-se em contar? Heitor, afinal, não faz a mesma coisa que qualquer uma das térmitas anônimas? Por que seu valor nos parece mais autêntico e mais difícil do que o dos insetos? Qual é a diferença entre um caso e outro? Simplesmente, a diferença está em que as térmitas-soldados lutam e morrem porque têm de fazê-lo, inevitavelmente (como a aranha que come a mosca). Heitor, por outro lado, sai para enfrentar Aquiles porque quer. As térmitas- soldados não podem desertar, nem se rebelar, nem se esquivar para que outras tomem seu lugar: estão programadas necessariamente pela natureza para cumprirem sua missão heróica. O caso de Heitor é diferente. Poderia dizer que está doente ou que não tem vontade de enfrentar alguém mais forte do que ele. Talvez seus concidadãos o chamem de covarde e o considerem descarado, ou talvez lhe perguntem se tem outro plano para deter Aquiles, mas é indubitável que ele tem a possibilidade de negar-se a ser herói. Por maior que seja a pressão dos outros sobre ele, sempre poderá escapar do que se supõe que deva fazer: não está programado para ser herói, nenhum homem está. Daí o mérito de seu gesto e o fato de Homero contar sua história com épica emoção. Ao contrário das térmitas, dizemos que Heitor é livre, e por isso admiramos seu valor. Chegamos assim à palavra fundamental de toda essa confusão: liberdade. Os animais (sem falar nos minerais ou nas plantas) não têm outro remédio senão ser como são e fazer o que estão naturalmente programados para fazer. Não se pode repreendê-los ou aplaudi-los pelo que fazem, pois não sabem comportar-se de outro modo. Essa disposição obrigatória poupa-lhes, sem dúvida, muita dor de cabeça. Em certa medida, decerto, nós, seres humanos, também somos programados pela natureza. Somos feitos para beber água, e não lixívia, e, apesar de todas as nossas precauções, mais cedo ou mais tarde devemos morrer. E, de maneira menos imperiosa mas bem parecida, nosso programa cultural é determinante: nosso pensamento é condicionado pela linguagem que lhe dá forma (uma linguagem que nos é imposta de fora e que não inventamos para nosso uso pessoal) e somos educados dentro de certas tradições, hábitos, formas de comportamento, lendas...; em resumo, desde o berço nos são inculcadas certas fidelidades e não outras. Tudo isso pesa muito e faz com que sejamos bastante previsíveis. Voltemos ao exemplo de Heitor, de quem acabamos de falar. Sua programação natural fazia com que Heitor sentisse necessidade de proteção, abrigo e colaboração, benefícios que, bem ou mal, encontrava em sua cidade de Tróia. Também era muito natural que considerasse com afeto sua mulher Andrômaca - que lhe proporcionava companhia aprazível - e seu filhinho, por quem sentia laços de apego biológico. Culturalmente, sentia-se parte de Tróia e compartilhava com os troianos a língua, os costumes e as tradições. Além disso, desde pequeno fora educado para ser um bom guerreiro a serviço de sua cidade, e lhe disseram que a covardia era algo aversivo, indigno de um homem. Se traísse os seus, Heitor sabia que seria desprezado e, de um modo ou de outro, castigado. De maneira que também estava bastante programado para agir como fez, não é mesmo? E no entanto... No entanto Heitor poderia ter dito: que vá tudo às favas! Poderia ter escapado de Tróia no meio da noite disfarçado de mulher, ou ter-se fingido de doente ou louco para não combater, ou ter-se ajoelhado diante de Aquiles oferecendo-lhe seus serviços como guia para invadir Tróia por seu lado mais vulnerável; também poderia ter-se entregado à bebida ou inventado uma nova religião que dissesse que não devemos lutar contra os inimigos mas oferecer a outra face quando nos esbofeteiam. Você me dirá que todos esses comportamentos teriam sido extraordinários, em vista de quem era Heitor e da educação que recebera. Mas é preciso reconhecer que não são hipóteses impossíveis, ao passo que um castor que fabrique favos ou uma térmita desertora não são algo extraordinário, mas estritamente impossível. Com os homens nunca é possível ter certeza absoluta, ao passo que com os animais ou com outros seres naturais sim. Por mais que sejamos programados biológica ou culturalmente, nós, seres humanos, sempre podemos, ao final, optar por algo que não esteja no programa (pelo menos que não esteja totalmente). Podemos dizer "sim" ou "não", quero ou não quero. Por mais que nos vejamos acuados pelas circunstâncias, nunca temos apenas um caminho a seguir, mas vários. Quando falo de liberdade, é a isso que estou me referindo: ao que nos diferencia das térmitas e das marés, de tudo o que se move de modo necessário e inevitável. É certo que não podemos fazer qualquer coisa que queiramos, mas também é certo que não somos obrigados a querer fazer uma única coisa. Aqui convém fazer dois esclarecimentos a respeito da liberdade: Primeiro: Não somos livres para escolher o que nos acontece (termos nascido num determinado dia, de determinados pais, num determinado país, termos um câncer ou sermos atropelados por um carro, sermos feios ou bonitos, os aqueus se empenharem em conquistar nossa cidade, etc.), mas livres para responder ao que nos acontece de um ou outro modo (obedecer ou nos rebelar, ser prudentes ou temerários, vingativos ou resignados, vestir-nos na moda ou nos fantasiar de urso das cavernas, defender Tróia ou fugir, etc.). Segundo: Sermos livres para tentar algo não significa consegui-lo infalivelmente. A liberdade (que consiste em escolher dentro do possível) não é o mesmo que a onipotência (que seria conseguir sempre o que se quer, mesmo parecendo impossível). Por isso, quanto maior for nossa capacidade de ação, melhores resultados poderemos obter de nossa liberdade. Sou livre para querer subir o monte Everest, mas, em vista do meu estado físico miserável e de meu preparo nulo para o alpinismo, é praticamente impossível que eu consiga meu objetivo. Em compensação, sou livre para ler ou não ler, mas, como aprendi a ler quando pequeno, não será muito difícil fazê-lo se assim eu decidir. Há coisas que dependem da minha vontade (e isso é ser livre), mas nem tudo depende de minha vontade (senão eu seria onipotente), pois no mundo há muitas outras vontades e muitas outras necessidades que não controlo conforme meu gosto. Se eu não conhecer a mim mesmo e ao mundo em que vivo, minha liberdade às vezes irá esbarrar com o necessário. Mas - isso é importante - nem por isso deixarei de ser livre... mesmo que me queime.Na realidade, existem muitas forças que limitam nossa liberdade, desde terremotos e doenças até tiranos. Mas nossa liberdade também é uma força no mundo, nossa força. No entanto, se você conversar com as pessoas, verá que a maioria tem muito mais consciência do que limita sua liberdade do que da própria liberdade. Muita gente lhe dirá: "Liberdade? Mas de que liberdade você está falando? Como podemos ser livres se nos fazem a cabeça através da televisão, se os governantes nos enganam e nos manipulam, se os terroristas nos ameaçam, se as drogas nos escravizam e se, além de tudo, não tenho dinheiro para comprar uma moto, que é o que eu desejaria?" Se você prestar um pouco de atenção, verá que aqueles que falam assim parecem estar se queixando mas, na verdade, estão muito satisfeitos por saber que não são livres. No fundo, eles pensam: "Ufa! Que peso tiramos de cima de nós! Como não somos livres, não podemos ter a culpa de nada que nos aconteça..." Mas tenho certeza de que ninguém acredita de verdade que não é livre, ninguém aceita tranqüilamente que funciona como um mecanismo inexorável de relógio ou como uma térmita. Podemos achar que optar livremente por certas coisas em certas circunstâncias é muito difícil (entrar numa casa em chamas para salvar uma criança, por exemplo, ou enfrentar um tirano com firmeza) e que é melhor dizer que não há liberdade para não reconhecermos que preferimos livremente o mais fácil, ou seja, esperar os bombeiros ou lamber as botas de quem está pisando em nosso pescoço. Mas em nossas entranhas alguma coisa insiste em dizer: "Se você quisesse..." Quando alguém insistir em negar que nós, seres humanos, somos livres, aconselho-o a aplicar a essa pessoa a prova do filósofo romano. Na Antiguidade, um filósofo romano discutia com um amigo que negava a liberdade humana e afirmava que todos os homens não têm outro remédio senão fazer o que fazem. O filósofo pegou sua bengala e começou a golpear o amigo com toda a força. "Pare, chega, não me bata mais!", dizia o outro. E o filósofo, sem parar de espancá-lo, continuou argumentando: "Você não está dizendo que não sou livre e que não posso evitar fazer o que faço? Pois então não gaste saliva pedindo-me para parar: sou automático." Enquanto o amigo não reconheceu que o filósofo podia livremente deixar de golpeá-lo, o filósofo não suspendeu as bengaladas. A prova é boa, mas você só deve utilizá-la em caso extremo e sempre com amigos que não pratiquem artes marciais... Resumindo: ao contrário de outros seres, animados ou inanimados, nós homens podemos inventar e escolher, em parte, nossa forma de vida. Podemos optar pelo que nos parece bom, ou seja, conveniente para nós, em oposição ao que nos parece mau e inconveniente. Como podemos inventar e escolher, podemos nos enganar, o que não acontece com os castores, as abelhas e as térmitas. De modo que parece prudente atentarmos bem para o que fazemos, procurando adquirir um certo saber-viver que nos permita acertar. Esse saber-viver, ou arte de viver, se você preferir, é o que se chama de ética. E é disso que continuaremos falando nas páginas seguintes deste livro, se você tiver paciência.
QUESTÕES
1.Porque algumas coisas são necessárias saber e outras nem tanto?
2.Comente: “O que é mau às vezes parece ser mais ou menos bom e o que é bom tem, em certas ocasiões, aparência de mau”.
3. Explique porque parece que “a única coisa com que todos nós concordamos é que não concordamos com todos”?
4.Justifique o seguinte pensamento – “nossa vida em parte é resultado daquilo que queremos”.
5. O que o exemplo das térmitas e de Heitor tem a nos ensinar?
6.Que limites e possibilidades existem na liberdade de cada um de nós?
7.Como é definida a ética pelo autor?

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O CLUBE DO IMPERADOR

1.Com base no desenrolar da história do filme, comente o significado do lema “o fim depende do início” enfatizado pelo colégio St. Benedict's.
2. Em que momento e por que o professor William Hundert usou a frase "A juventude envelhece, a imaturidade é superada, a ignorância pode ser educada e a embriaguez passa, mas a estupidez dura para sempre” (Aristófanes).
3. O fato de Sedgewick Bell ser um dos três finalistas da competição “Julio Cesar” contribuiu para mudança de seu caráter?Será que o homem é resultado do meio, ou fruto do que verdadeiramente escolhe ser? Justifique.
4. Que tipo de político o já adulto Sedgewick Bell pretendia ser? Qual a justificativa para sua imagem política?
5. Quais as diferenças no caráter de Sedgewick Bell e Martin Blythe apresentadas durante o filme?

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

TEXTO PARA O TRABALHO DO 3 ANO - LIVRO FILOSOFANDO - CAPÍTULO 35 A MORTE

Quem ensinasse os homens a morrer, os ensinaria a viver. (Montaigne) O que se tornou perfeito, inteiramente maduro, quer morrer. (Nietzsche) Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental da filosofia. (Camus)
1. A morte como enigma A morte é o destino inexorável de todos os seres vivos. No entanto, só o homem tem consciência da própria morte. Por se perceber finito, o homem aguarda com ansiedade o que poderá ocorrer após a morte. A crença na imortalidade, na vida depois da morte, simboliza bem a recusa da própria destruição e o anseio de eternidade. Estudos a respeito dos primórdios da nossa civilização relacionam o aparecimento das primeiras angústias metafísicas do homem ao registro dos sinais de culto aos mortos. Portanto a morte se apresenta desde o início como uma fronteira que não significa apenas o fim da vida, mas o limiar de outra realidade instigante porque ininteligível, além de atemorizadora. A morte daqueles que amamos e a iminência da nossa própria morte estimula a crença a respeito da imortalidade. Segundo Jaspers,"existe algo em nós que não se pode crer suscetível de destruição". Por isso é inevitável que desde o início da cultura humana o recurso à fé religiosa tenha aplacado o temor diante do desconhecido. Através dos tempos, a consciência religiosa tem oferecido um conjunto de convicções que orientam o comportamento humano diante do mistério da morte: quer seja pelos rituais de passagem dos primitivos quer seja nas religiões mais elaboradas, pelos preceitos do viver terreno para garantir melhor destino à alma. Por isso, a angústia da morte tem levado à crença na imortalidade e na aceitação do sobrenatural, do sagrado, do divino.
2. As mortes simbólicas O homem não tem, contudo, consciência apenas da morte enquanto fim da sua vida. O conceito de finitude o acompanha em tudo que faz: é significativa a imagem mítica do deus Cronos (Tempo) devorando os próprios filhos. A morte, como clímax de um processo, é antecedida por diversas formas de "morte" que permeiam o tempo todo a vida humana. O próprio nascimento é a primeira morte, no sentido de ser a primeira perda, a primeira separação. Rompido o cordão umbilical, a antiga e cálida simbiose do feto no útero materno é substituída pelo enfrentamento do novo ambiente. A MORTE A oposição entre o velho e o novo repete indefinidamente a primeira ruptura e explica a angústia do homem diante do seu próprio dilaceramento interno: ao mesmo tempo que anseia pelo novo, teme abandonar o conforto e a segurança da estrutura antiga a que já se habituou. Os heróis, os santos, os artistas, os revolucionários são sempre os que se tornam capazes de enfrentar o desafio da morte, tanto no sentido literal como no simbólico, por serem capazes de construir o novo a partir da superação da velha ordem.
3. A filosofia e a morte No diálogo Fedon Platão descreve os momentos finais da "ida de Sócrates antes de sua execução, quando discute com os discípulos a respeito da ligação entre corpo e alma. Sendo o corpo um estorvo para a alma, a serenidade do sábio diante da morte é o reconhecimento de que a separação significa a libertação do espírito. No decorrer da história da filosofia, muitas vezes os pensadores trataram explicitamente a respeito da morte e da imortalidade da alma, mas essa questão está na raiz de toda filosofia e, mesmo quando não se discute diretamente sobre a morte, ela se situ a no horizonte de toda reflexão filosófica. É nesse sentido que Platão afirma ser a filosofia uma meditação da morte, e Montaigne diz que "filosofar é aprender a morrer". Pois se a filosofia é uma das formas da transcendência humana, pela qual refletimos a respeito de nossa existência e destino, a discussão sobre a morte não lhe pode ser estranha. Segundo Heidegger (ver Capitulo 31 - O existencialismo), o ser do homem como possibilidade, como projeto, o introduz na temporalidade. Isso não significa apenas que o homem tem um passado e um futuro e que os momentos se sucedem passivamente uns aos outros; significa que o futuro se revela como aquilo para o qual a existência é projetada e que o passado é aquilo que a existência transcende. O existir humano consiste no lançar-se continuo às possibilidades, entre as quais se encontra justamente a situação-limite representada pela morte, a qual possibilita o olhar crítico sobre o cotidiano. E nesse sentido que podemos considerar o homem como um "ser-para-a-morte". Para Heidegger, só o homem autêntico enfrenta a angústia e assume a construção da sua vida. O homem inautêntico foge da angústia, refugia-se na impessoalidade, nega a transcendência e repete os gestos de "todo o mundo" nos atos cotidianos. No mundo massificado do homem inautêntico, até a morte é banalizada, e dela se fala como se fosse um acontecimento genérico, longínquo e impalpável. A impessoalidade tranquiliza e aliena o homem, confortavelmente instalado num universo sem indagações. Há a recusa de refletir sobre a morte como um acontecimento que nos atinge pessoalmente. Sartre, referindo-se à sua infância em As palavras, diz: "A morte era a minha vertigem porque eu não amava viver: é o que explica o terror que ela me inspirava. (...) Quanto mais absurda a vida, menos suportável é a morte". Na teoria sartriana, ao contrário da de Heidegger, a consciência da morte retira todo significado à vida, pois a morte é a" nadificação" dos nossos projetos, a certeza de que um nada total nos espera . E conclui pelo absurdo da morte e, simultaneamente, da vida, que é uma "paixão inútil". Mas seja a morte considerada, como em Heidegger, algo que dá sentido à vida; ou, como em Sartre, a dimensão do absurdo, o que nos intriga é a recusa que o homem contemporâneo manifesta em abordar a temática do morrer humano. Em nenhum tempo a recusa do enfrentamento da própria fínitude foi tão visível. Muitas podem ser as explicações dadas por antropólogos, sociólogos, psicólogos que certamente fecundarão a matéria de reflexão dos filósofos. O que não podemos é deixar de pensar na morte: vejamos por que.
4. Aspecto histórico-social da morte As sociedades tribais e tradicionais Observando a história e os diversos povos, verificamos que o sentido da morte não é sempre o mesmo. A maneira pela qual um povo enfrenta a morte ou o significado que lhe dá refletem de certa forma o sentido que ele confere à vida. Os pólos antagônicos vida e morte não são excludentes, pois são formas dialéticas inseparáveis. No mundo tribal, a morte não é propriamente um problema. Ela não é enfocada do ponto de vista da morte de um indivíduo, mas se acha integrada nas práticas coletivas de culto aos mortos, aos ancestrais. Como vimos no Capítulo 6, o homem primitivo se acha de tal forma envolvido na comunidade que o seu ser, não tendo o centro em si mesmo, se faz por meio da participação no todo coletivo. Como o eu se afirma pelos outros, o existir do primitivo é essencialmente relacional, e a individualidade se encontra envolvida pela totalidade maior da comunidade. Por isso a morte não é percebida como dissolução, o morto apenas muda de estado e passa a pertencer à comunidade dos mortos, o que é viabilizado por "rituais de passagem" adequados à ocasião. "Vivos e mortos, totem e deuses, antepassados, participam de uma mesma realidade vital."' Não há nenhuma idéia de aniquilamento, e os mortos podem retornar ao mundo dos vivos durante o sono destes e por meio de aparições. Nas sociedades tradicionais, fortemente marcadas pela predominância da vida comunitária, ocorre algo semelhante. Como são sociedades relacionais, onde o indivíduo se encontra inserido numa totalidade mais importante que ele, há uma série de cerimônias e rituais que cercam o evento da morte. Isso não significa que seja fácil morrer (muito ao contrário), mas sim que a morte não é banalizada porque se acha inserida no cotidiano das pessoas como um evento importante. Evidentemente, essas cerimônias variam conforme os costumes, mas v amos relembrar algumas delas, típicas das pequenas cidades, até ainda na primeira metade do século XX. Os parentes, vizinhos e amigos acompanham a agonia do moribundo. Geralmente o doente permanece em casa, atendido pelo médico da família. As cerimônias são procedidas conforme a religião do morto: dependendo disso, chama-se o padre para dar a extrema unção, de preferência enquanto há lucidez, sem falsos escrúpulos de que o doente perceba a proximidade da morte. Ao morrer, geralmente seu caixão é colocado sobre a mesa da sala de jantar e diante dele passarão os parentes, conhecidos e até transeuntes ocasionais, velando -se o defunto noite adentro. As crianças circulam pelo ambiente. O morto é chorado e freqüentemente relembrado. A ausência é assinalada pelo luto, cuja duração varia conforme o tipo de parentesco; em algumas regiões, a viúva deve guardá-lo pelo resto da vida. Um conjunto de atos determinados socialmente - como visitas ao cemitério, missas para a alma do morto, flores, visitas de pês ames, cartas de condolências - ajuda os parentes a atravessar o período doloroso da perda e a reintegração à vida normal. A negação da morte Um fenômeno diferente vem ocorrendo há cerca de cinquenta anos, como resultado do processo de urbanização dos centros industrializados. A grande cidade cosmopolita impiedosamente destruiu os antigos laços, fragmentando a comunidade em núcleos cada vez menores e instaurando extremo individualismo. As pessoas vivem no ritmo acelerado imprimido pelo sistema de produção e não têm tempo para os velhos e os doentes. A medicina, cada vez mais especializada, se ocupa desses "marginais" da sociedade - porque reduzidos à improdutividade -, que são trasladados para hospitais "a fim de ser melhor assistidos". Se, por um lado, são tratados em ambientes assépticos e com técnicas sofisticadas que prolongam a vida, por outro lado não escapam à solidão e à impessoalidade do atendimento. Os enfermeiros e médicos são eficientes, mas o moribundo se encontra afastado da mão amiga, da atenção sem pressa nem profissionalismo. Quando morre, o velório geralmente é feito no necrotério, para o qual não se costuma levar crianças, as quais crescem à margem dessa realidade da vida: nunca veem um morto, nem um cemitério. *** O. Gusdorf, Tratado de metafísica, p. 99. O francês Philippe Ariês aborda essas questões no clássico História da morte no Ocidente. Nele se refere ao sociólogo Geoffrey Gorer, que escreveu um estudo com o título provocativo de "A pornografia da morte", no qual mostra como a morte se tornou um tabu,substituindo o sexo como principal interdito: "Antigamente dizia-se às crianças que se nascia dentro de um repolho, mas elas assistiam à grande cena das despedidas, à cabeceira do moribundo. Hoje, são iniciadas desde a mais tenra idade na fisiologia do amor, mas, quando não veem mais o avô e se surpreendem, alguém lhes diz que ele repousa num belo jardim por entre as flores"> A "obscenidade" em falar da morte se torna grave quando se t rata dos doentes terminais, ou seja, daqueles que não escaparão da morte próxima. É comum tal fato ser escamoteado: os parentes, com a cumplicidade dos médicos, escondem do paciente sua doença letal e o fim próximo. Nem diante da iminência da morte ousamos falar dela. A tentativa de ocultamento da morte talvez explique a sofisticação das funerárias americanas que "tomam conta do morto". Medard Boss, médico e psicanalista suíço, diz: "Nunca esquecerei minhas visitas aos "Funeral Homes" americanos, nos quais os defuntos são maquilados, um cigarro é colocado em suas bocas, e ao lado se tocam fitas gravadas com discursos que os falecidos pronunciaram outrora ". O antropólogo brasileiro Roberto da Matta também se refere ao fato de os mortos serem colocados em caixões acolchoados de cetim que lembram uma cama confortável: "O que seria tudo isto, senão um modo radical de livrar -se do morto, transformando-o em alguém que realmente dá a impressão de repousar?" Por que será que o homem contemporâneo escamoteia assim a morte? Talvez porque a dificuldade que ele sente para lidar com a morte esteja relacionada à sua incapacidade para lidar com a vida. O homem urbano, individualista, massacrado pelo sistema de produção, obrigado a desempenhar funções que não escolheu e num ritmo que não é o seu, acha -se muito distante daquilo que poderíamos considerar uma boa qualidade de vida. Independentemente do progresso técnico atingido, são altos os níveis de alienação humana no trabalho, no consumo, no lazer (ver Capítulo 2 - Trabalho e alienação). Mais ainda, a insensibilidade com relação à morte individual tem paralelo com a inconsciência referente ao destino do planeta. Pela primeira vez na história da humanidade a morte ultrapassa a dimensão do indivíduo e ameaça a sobrevivência de todos. Por isso, é preciso resgatar, no mundo atual, a consciência da morte, o que não deve ser entendido como a preocupação mórbida, doentia do homem que vive obcecado pela morte inevitável. Tal atitude seria pessimista e paralisante. Ao contrário, ao reconhecer a finitude da vida, reavaliamos nosso comportamento e escolhas, e podemos proceder a uma diferente priorização de valores. Por exemplo, se tomamos como valores absolutos o acúmu o de bens, a fama e o poder, a reflexão sobre a mortalidade torna ridículos esses anseios, privilegiando outros valores que nos dão maior dignidade. Essa mesma reflexão, no nível planetário, nos ajuda a questionar os falsos objetivos do progresso a qualquer custo. A consciência da morte nos ajuda a questionar não só se nossa vida é autêntica ou inautêntica, mas também se faz sentido o destino que os povos legaram para seus herdeiros.
Exercícios
1. "O problema da morte, em seu significado radical, não tem apenas conexão com o problema do aniquilamento ou da sobrevivência: consiste nele." (Julian Marias) Em que medida a citação acima revela a dimensão religiosa da morte?
2. "No fundo de nós mesmos, nós nos sentimos não-mortais". Comente a frase de Philippe Ariês, observando que ele não diz "imortais", mas "não-mortais". 3. Em que sentido a reflexão sobre a morte pode ser importante para a ética?
4. Qual é a principal diferença entre o enfrentamento da morte no mundo tribal, nas sociedades tradicionais e no mundo contemporâneo?
5. O que quer dizer, nas sociedades contemporâneas, o "tabu da morte"?
6. "... ninguém morre antes da hora, O tempo que perdeis não vos pertence mais do que o que p recedeu vosso nascimento, e não vos interessa". "Considerai em verdade que os séculos intermináveis ,já passados, são para vós como se não tivessem sido. Qualquer que seja a duração de vossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração e sim no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu, Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante. Imagináveis então nunca chegardes ao ponto para o qual vos dirigíeis? Haverá caminho que não tenha fim?" (Montaigne) Comente o significado do trecho dos Ensaios, de Montaigne, capítulo XX, intitulado "De como filosofar é aprender a morrer".