segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

2 ANO DO EM - Questões do filme: Efeito Borboleta

1.Preencha com informações técnicas:
Direção:
Roteiro:
Gênero:
Origem:
Duração:
2. Cite o nome de três personagens centrais.
3. De quem o protagonista herdou sua capacidade de viajar no tempo?
4. Que situação de pedofilia ocorre no filme?
5. Por mais que volte no tempo o protagonista acaba percebendo que alguém sai perdendo, que solução ele encontrou no final do filme para evitar um caos maior?
6. Se você pudesse voltar no tempo o que mudaria em sua vida?
7. Que valor(es) determinou(am) as atitudes de Evan? Você concorda? Justifique.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O que é Ética?

Há ciências que estudamos por simples interesse de saber coisas novas; outras, para adquirir uma habilidade que nos permita fazer ou utilizar alguma coisa; a maioria, para conseguir um trabalho e ganhar a vida com ele. Se não sentirmos curiosidade nem necessidade de realizar esses estudos, poderemos prescindir deles tranqüilamente. Há uma infinidade de conhecimentos muito interessantes mas sem os quais podemos nos arranjar muito bem para viver. Eu, por exemplo, lamento muito não ter nem idéia de astrofísica ou de marcenaria, que dão tanta satisfação a outras pessoas, embora essa ignorância nunca me tenha impedido de ir sobrevivendo até hoje. E você, se não me engano, conhece as regras do futebol mas é bem fraco em beisebol. Não tem maior importância, você desfruta os campeonatos mundiais, dispensa olimpicamente a liga americana e todo o mundo sai satisfeito. O que eu quero dizer é que certas coisas a pessoa pode aprender ou não, conforme sua vontade. Como ninguém é capaz de saber tudo, o remédio é escolher e aceitar com humildade o muito que ignoramos. É possível viver sem saber astrofísica, marcenaria, futebol e até mesmo sem saber ler e escrever: vive-se pior, decerto, mas vive-se. No entanto, há outras coisas que é preciso saber porque, por assim dizer, são fundamentais para nossa vida. É preciso saber, por exemplo, que saltar de um balcão do sexto andar não é bom para a saúde; ou que uma dieta de pregos (perdoem-me os faquires!) e ácido prússico não nos permitirá chegar à velhice. Também não é aconselhável ignorar que, se dermos um safanão no vizinho cada vez que cruzarmos com ele, mais cedo ou mais tarde haverá conseqüências muito desagradáveis. Pequenezas desse tipo são importantes. Podemos viver de muitos modos, mas há modos que não nos deixam viver.Em resumo, entre todos os saberes possíveis existe pelo menos um imprescindível: o de que certas coisas nos convêm e outras não. Certos alimentos não nos convém, assim como certos comportamentos e certas atitudes. Quero dizer, é claro, que não nos convém se desejamos continuar vivendo. Se alguém quiser arrebentar-se o quanto antes, beber lixívia poderá ser muito adequado, ou também cercar-se do maior número possível de inimigos. Mas, de momento, vamos supor que preferimos viver, deixando de lado, por enquanto, os respeitáveis gostos do suicida. Assim, há coisas que nos convêm, e o que nos convém costumamos dizer que é "bom", pois nos cai bem; outras, em compensação, não nos convém, caem-nos muito mal, e o que não nos convém dizemos que é "mau". Saber o que nos convém, ou seja, distinguir entre o bom e o mau, é um conhecimento que todos nós tentamos adquirir - todos, sem exceção - pela compensação que nos traz. Como afirmei antes, há coisas boas e más para a saúde: é necessário saber o que devemos comer, ou que o fogo às vezes aquece e outras vezes queima, ou ainda que a água pode matar a sede e também nos afogar. No entanto, às vezes as coisas não são tão simples: certas drogas, por exemplo, aumentam nossa energia ou produzem sensações agradáveis, mas seu abuso contínuo pode ser nocivo. Em alguns aspectos são boas, mas em outros são más: elas nos convém e ao mesmo tempo não nos convém. No terreno das relações humanas, essas ambigüidades ocorrem com maior freqüência ainda. A mentira é, em geral, algo mau, porque destrói a confiança na palavra - e todos nós precisamos falar para viver em sociedade - e provoca inimizade entre as pessoas; mas às vezes pode parecer útil ou benéfico mentir para obter alguma vantagem, ou até para fazer um favor a alguém. Por exemplo, é melhor dizer ao doente de câncer incurável a verdade sobre seu estado, ou deve-se enganá-lo para que ele viva suas últimas horas sem angústia? A mentira não nos convém, é má, mas às vezes parece acabar sendo boa. Procurar briga com os outros, como já dissemos, em geral é inconveniente, mas devemos consentir que violentem uma garota diante de nós sem interferir, sob pretexto de não nos metermos em confusão? Por outro lado, quem sempre diz a verdade - doa a quem doer - costuma colher a antipatia de todo o mundo; e quem interfere ao estilo Indiana Jones para salvar a garota agredida tem maior probabilidade de arrebentar a cabeça do que quem segue para casa assobiando. O que é mau às vezes parece ser mais ou menos bom e o que é bom tem, em certas ocasiões, aparência de mau. Haja confusão! Saber viver não é tão fácil, pois é preciso lidar com diversos critérios opostos. Em matemática ou geografia, há sábios e ignorantes, mas os sábios estão quase sempre de acordo quanto ao fundamental. No viver, por outro lado, as opiniões estão longe de ser unânimes. Se alguém prefere levar uma vida emocionante, pode dedicar-se aos carros de Fórmula l ou ao alpinismo; mas quem preferir uma vida segura e tranqüila fará melhor em buscar as aventuras no videoclube da esquina. Alguns garantem que o mais nobre é viver para os outros, mas há pessoas que acham que o mais útil é conseguir que os outros vivam para elas. Segundo certas opiniões, o que conta é ganhar dinheiro e nada mais, ao passo que outros afirmam que o dinheiro sem saúde, tempo livre, afeto sincero ou serenidade nada vale. Médicos respeitáveis mostram que renunciar ao fumo e ao álcool é um meio seguro de prolongar a vida, e os fumantes e bêbados respondem que com essas privações sua vida logo se tornaria muito mais frouxa. E assim por diante. À primeira vista, a única coisa com que todos nós concordamos é que não concordamos com todos. Mas observe que também essas opiniões diferentes coincidem em outro ponto, ou seja, nossa vida é, pelo menos em parte, resultado daquilo que queremos. Se nossa vida fosse algo inteiramente determinado e fatal, irremediável, todas estas considerações não teriam o menor sentido. Ninguém discute sobre se as pedras devem cair para baixo ou para cima: elas caem para baixo e ponto final. Os castores fazem diques nos rios e as abelhas favos de alvéolos hexagonais: não há castores que tentem fazer alvéolos de favo nem abelhas que se dediquem à engenharia hidráulica. Em seu meio natural, cada animal parece saber perfeitamente o que é bom e o que é mau para ele, sem discussões ou dúvidas. Não há animais maus nem bons na natureza, embora talvez a mosca considere má a aranha que tece sua teia e a devora. Mas para a aranha isso é inevitável... Vou lhe contar um caso dramático. Você conhece as térmitas, aquelas formigas brancas que, na África, constroem formigueiros impressionantes, de vários metros de altura e duros feito pedra. Como o corpo das térmitas é mole, por não ter a couraça de quitina que protege outros insetos, o formigueiro tem a função de uma grande carapaça coletiva que as defende contra certas formigas inimigas mais bem armadas do que elas. Mas às vezes um desses formigueiros desmorona por causa de uma inundação ou de algum elefante (os elefantes gostam de se coçar esfregando os flancos contra os termiteiros - o que fazer?). Logo as térmitas-operárias põem-se a trabalhar para reconstruir depressa a fortaleza danificada. E as grandes formigas inimigas lançam-se ao ataque. As térmitas-soldados saem para defender sua tribo, tentando deter as inimigas. Como não podem competir com elas nem em tamanho nem em armamentos, dependuram-se nas atacantes tentando frear sua marcha, e vão sendo despedaçadas pelas mandíbulas das inimigas. As operárias trabalham celeremente para voltar a fechar o termiteiro ruído... mas fecham-no deixando fora as pobres e heróicas térmitas-soldados, que sacrificam suas vidas pela segurança das outras. Será que elas não merecem pelo menos uma medalha? Não é justo dizer que são valentes! Muda o cenário, mas não o tema. Na Iliada, Homero conta a história de Heitor, o melhor guerreiro de Tróia, que, fora das muralhas de sua cidade, espera obstinadamente por Aquiles, o enfurecido herói dos aqueus, mesmo sabendo que este é mais forte e provavelmente irá matá-lo. Heitor faz isso para cumprir seu dever, que consiste em defender sua família e seus concidadãos do terrível atacante. Ninguém duvida de que Heitor é um herói, um autêntico valente. Mas não será Heitor heróico e valente do mesmo modo que as térmitas-soldados, cuja gesta milhões de vezes repetida nenhum Homero preocupou-se em contar? Heitor, afinal, não faz a mesma coisa que qualquer uma das térmitas anônimas? Por que seu valor nos parece mais autêntico e mais difícil do que o dos insetos? Qual é a diferença entre um caso e outro? Simplesmente, a diferença está em que as térmitas-soldados lutam e morrem porque têm de fazê-lo, inevitavelmente (como a aranha que come a mosca). Heitor, por outro lado, sai para enfrentar Aquiles porque quer. As térmitas- soldados não podem desertar, nem se rebelar, nem se esquivar para que outras tomem seu lugar: estão programadas necessariamente pela natureza para cumprirem sua missão heróica. O caso de Heitor é diferente. Poderia dizer que está doente ou que não tem vontade de enfrentar alguém mais forte do que ele. Talvez seus concidadãos o chamem de covarde e o considerem descarado, ou talvez lhe perguntem se tem outro plano para deter Aquiles, mas é indubitável que ele tem a possibilidade de negar-se a ser herói. Por maior que seja a pressão dos outros sobre ele, sempre poderá escapar do que se supõe que deva fazer: não está programado para ser herói, nenhum homem está. Daí o mérito de seu gesto e o fato de Homero contar sua história com épica emoção. Ao contrário das térmitas, dizemos que Heitor é livre, e por isso admiramos seu valor. Chegamos assim à palavra fundamental de toda essa confusão: liberdade. Os animais (sem falar nos minerais ou nas plantas) não têm outro remédio senão ser como são e fazer o que estão naturalmente programados para fazer. Não se pode repreendê-los ou aplaudi-los pelo que fazem, pois não sabem comportar-se de outro modo. Essa disposição obrigatória poupa-lhes, sem dúvida, muita dor de cabeça. Em certa medida, decerto, nós, seres humanos, também somos programados pela natureza. Somos feitos para beber água, e não lixívia, e, apesar de todas as nossas precauções, mais cedo ou mais tarde devemos morrer. E, de maneira menos imperiosa mas bem parecida, nosso programa cultural é determinante: nosso pensamento é condicionado pela linguagem que lhe dá forma (uma linguagem que nos é imposta de fora e que não inventamos para nosso uso pessoal) e somos educados dentro de certas tradições, hábitos, formas de comportamento, lendas...; em resumo, desde o berço nos são inculcadas certas fidelidades e não outras. Tudo isso pesa muito e faz com que sejamos bastante previsíveis. Voltemos ao exemplo de Heitor, de quem acabamos de falar. Sua programação natural fazia com que Heitor sentisse necessidade de proteção, abrigo e colaboração, benefícios que, bem ou mal, encontrava em sua cidade de Tróia. Também era muito natural que considerasse com afeto sua mulher Andrômaca - que lhe proporcionava companhia aprazível - e seu filhinho, por quem sentia laços de apego biológico. Culturalmente, sentia-se parte de Tróia e compartilhava com os troianos a língua, os costumes e as tradições. Além disso, desde pequeno fora educado para ser um bom guerreiro a serviço de sua cidade, e lhe disseram que a covardia era algo aversivo, indigno de um homem. Se traísse os seus, Heitor sabia que seria desprezado e, de um modo ou de outro, castigado. De maneira que também estava bastante programado para agir como fez, não é mesmo? E no entanto... No entanto Heitor poderia ter dito: que vá tudo às favas! Poderia ter escapado de Tróia no meio da noite disfarçado de mulher, ou ter-se fingido de doente ou louco para não combater, ou ter-se ajoelhado diante de Aquiles oferecendo-lhe seus serviços como guia para invadir Tróia por seu lado mais vulnerável; também poderia ter-se entregado à bebida ou inventado uma nova religião que dissesse que não devemos lutar contra os inimigos mas oferecer a outra face quando nos esbofeteiam. Você me dirá que todos esses comportamentos teriam sido extraordinários, em vista de quem era Heitor e da educação que recebera. Mas é preciso reconhecer que não são hipóteses impossíveis, ao passo que um castor que fabrique favos ou uma térmita desertora não são algo extraordinário, mas estritamente impossível. Com os homens nunca é possível ter certeza absoluta, ao passo que com os animais ou com outros seres naturais sim. Por mais que sejamos programados biológica ou culturalmente, nós, seres humanos, sempre podemos, ao final, optar por algo que não esteja no programa (pelo menos que não esteja totalmente). Podemos dizer "sim" ou "não", quero ou não quero. Por mais que nos vejamos acuados pelas circunstâncias, nunca temos apenas um caminho a seguir, mas vários. Quando falo de liberdade, é a isso que estou me referindo: ao que nos diferencia das térmitas e das marés, de tudo o que se move de modo necessário e inevitável. É certo que não podemos fazer qualquer coisa que queiramos, mas também é certo que não somos obrigados a querer fazer uma única coisa. Aqui convém fazer dois esclarecimentos a respeito da liberdade: Primeiro: Não somos livres para escolher o que nos acontece (termos nascido num determinado dia, de determinados pais, num determinado país, termos um câncer ou sermos atropelados por um carro, sermos feios ou bonitos, os aqueus se empenharem em conquistar nossa cidade, etc.), mas livres para responder ao que nos acontece de um ou outro modo (obedecer ou nos rebelar, ser prudentes ou temerários, vingativos ou resignados, vestir-nos na moda ou nos fantasiar de urso das cavernas, defender Tróia ou fugir, etc.). Segundo: Sermos livres para tentar algo não significa consegui-lo infalivelmente. A liberdade (que consiste em escolher dentro do possível) não é o mesmo que a onipotência (que seria conseguir sempre o que se quer, mesmo parecendo impossível). Por isso, quanto maior for nossa capacidade de ação, melhores resultados poderemos obter de nossa liberdade. Sou livre para querer subir o monte Everest, mas, em vista do meu estado físico miserável e de meu preparo nulo para o alpinismo, é praticamente impossível que eu consiga meu objetivo. Em compensação, sou livre para ler ou não ler, mas, como aprendi a ler quando pequeno, não será muito difícil fazê-lo se assim eu decidir. Há coisas que dependem da minha vontade (e isso é ser livre), mas nem tudo depende de minha vontade (senão eu seria onipotente), pois no mundo há muitas outras vontades e muitas outras necessidades que não controlo conforme meu gosto. Se eu não conhecer a mim mesmo e ao mundo em que vivo, minha liberdade às vezes irá esbarrar com o necessário. Mas - isso é importante - nem por isso deixarei de ser livre... mesmo que me queime.Na realidade, existem muitas forças que limitam nossa liberdade, desde terremotos e doenças até tiranos. Mas nossa liberdade também é uma força no mundo, nossa força. No entanto, se você conversar com as pessoas, verá que a maioria tem muito mais consciência do que limita sua liberdade do que da própria liberdade. Muita gente lhe dirá: "Liberdade? Mas de que liberdade você está falando? Como podemos ser livres se nos fazem a cabeça através da televisão, se os governantes nos enganam e nos manipulam, se os terroristas nos ameaçam, se as drogas nos escravizam e se, além de tudo, não tenho dinheiro para comprar uma moto, que é o que eu desejaria?" Se você prestar um pouco de atenção, verá que aqueles que falam assim parecem estar se queixando mas, na verdade, estão muito satisfeitos por saber que não são livres. No fundo, eles pensam: "Ufa! Que peso tiramos de cima de nós! Como não somos livres, não podemos ter a culpa de nada que nos aconteça..." Mas tenho certeza de que ninguém acredita de verdade que não é livre, ninguém aceita tranqüilamente que funciona como um mecanismo inexorável de relógio ou como uma térmita. Podemos achar que optar livremente por certas coisas em certas circunstâncias é muito difícil (entrar numa casa em chamas para salvar uma criança, por exemplo, ou enfrentar um tirano com firmeza) e que é melhor dizer que não há liberdade para não reconhecermos que preferimos livremente o mais fácil, ou seja, esperar os bombeiros ou lamber as botas de quem está pisando em nosso pescoço. Mas em nossas entranhas alguma coisa insiste em dizer: "Se você quisesse..." Quando alguém insistir em negar que nós, seres humanos, somos livres, aconselho-o a aplicar a essa pessoa a prova do filósofo romano. Na Antiguidade, um filósofo romano discutia com um amigo que negava a liberdade humana e afirmava que todos os homens não têm outro remédio senão fazer o que fazem. O filósofo pegou sua bengala e começou a golpear o amigo com toda a força. "Pare, chega, não me bata mais!", dizia o outro. E o filósofo, sem parar de espancá-lo, continuou argumentando: "Você não está dizendo que não sou livre e que não posso evitar fazer o que faço? Pois então não gaste saliva pedindo-me para parar: sou automático." Enquanto o amigo não reconheceu que o filósofo podia livremente deixar de golpeá-lo, o filósofo não suspendeu as bengaladas. A prova é boa, mas você só deve utilizá-la em caso extremo e sempre com amigos que não pratiquem artes marciais... Resumindo: ao contrário de outros seres, animados ou inanimados, nós homens podemos inventar e escolher, em parte, nossa forma de vida. Podemos optar pelo que nos parece bom, ou seja, conveniente para nós, em oposição ao que nos parece mau e inconveniente. Como podemos inventar e escolher, podemos nos enganar, o que não acontece com os castores, as abelhas e as térmitas. De modo que parece prudente atentarmos bem para o que fazemos, procurando adquirir um certo saber-viver que nos permita acertar. Esse saber-viver, ou arte de viver, se você preferir, é o que se chama de ética. E é disso que continuaremos falando nas páginas seguintes deste livro, se você tiver paciência.
QUESTÕES
1.Porque algumas coisas são necessárias saber e outras nem tanto?
2.Comente: “O que é mau às vezes parece ser mais ou menos bom e o que é bom tem, em certas ocasiões, aparência de mau”.
3. Explique porque parece que “a única coisa com que todos nós concordamos é que não concordamos com todos”?
4.Justifique o seguinte pensamento – “nossa vida em parte é resultado daquilo que queremos”.
5. O que o exemplo das térmitas e de Heitor tem a nos ensinar?
6.Que limites e possibilidades existem na liberdade de cada um de nós?
7.Como é definida a ética pelo autor?

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O CLUBE DO IMPERADOR

1.Com base no desenrolar da história do filme, comente o significado do lema “o fim depende do início” enfatizado pelo colégio St. Benedict's.
2. Em que momento e por que o professor William Hundert usou a frase "A juventude envelhece, a imaturidade é superada, a ignorância pode ser educada e a embriaguez passa, mas a estupidez dura para sempre” (Aristófanes).
3. O fato de Sedgewick Bell ser um dos três finalistas da competição “Julio Cesar” contribuiu para mudança de seu caráter?Será que o homem é resultado do meio, ou fruto do que verdadeiramente escolhe ser? Justifique.
4. Que tipo de político o já adulto Sedgewick Bell pretendia ser? Qual a justificativa para sua imagem política?
5. Quais as diferenças no caráter de Sedgewick Bell e Martin Blythe apresentadas durante o filme?

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

TEXTO PARA O TRABALHO DO 3 ANO - LIVRO FILOSOFANDO - CAPÍTULO 35 A MORTE

Quem ensinasse os homens a morrer, os ensinaria a viver. (Montaigne) O que se tornou perfeito, inteiramente maduro, quer morrer. (Nietzsche) Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental da filosofia. (Camus)
1. A morte como enigma A morte é o destino inexorável de todos os seres vivos. No entanto, só o homem tem consciência da própria morte. Por se perceber finito, o homem aguarda com ansiedade o que poderá ocorrer após a morte. A crença na imortalidade, na vida depois da morte, simboliza bem a recusa da própria destruição e o anseio de eternidade. Estudos a respeito dos primórdios da nossa civilização relacionam o aparecimento das primeiras angústias metafísicas do homem ao registro dos sinais de culto aos mortos. Portanto a morte se apresenta desde o início como uma fronteira que não significa apenas o fim da vida, mas o limiar de outra realidade instigante porque ininteligível, além de atemorizadora. A morte daqueles que amamos e a iminência da nossa própria morte estimula a crença a respeito da imortalidade. Segundo Jaspers,"existe algo em nós que não se pode crer suscetível de destruição". Por isso é inevitável que desde o início da cultura humana o recurso à fé religiosa tenha aplacado o temor diante do desconhecido. Através dos tempos, a consciência religiosa tem oferecido um conjunto de convicções que orientam o comportamento humano diante do mistério da morte: quer seja pelos rituais de passagem dos primitivos quer seja nas religiões mais elaboradas, pelos preceitos do viver terreno para garantir melhor destino à alma. Por isso, a angústia da morte tem levado à crença na imortalidade e na aceitação do sobrenatural, do sagrado, do divino.
2. As mortes simbólicas O homem não tem, contudo, consciência apenas da morte enquanto fim da sua vida. O conceito de finitude o acompanha em tudo que faz: é significativa a imagem mítica do deus Cronos (Tempo) devorando os próprios filhos. A morte, como clímax de um processo, é antecedida por diversas formas de "morte" que permeiam o tempo todo a vida humana. O próprio nascimento é a primeira morte, no sentido de ser a primeira perda, a primeira separação. Rompido o cordão umbilical, a antiga e cálida simbiose do feto no útero materno é substituída pelo enfrentamento do novo ambiente. A MORTE A oposição entre o velho e o novo repete indefinidamente a primeira ruptura e explica a angústia do homem diante do seu próprio dilaceramento interno: ao mesmo tempo que anseia pelo novo, teme abandonar o conforto e a segurança da estrutura antiga a que já se habituou. Os heróis, os santos, os artistas, os revolucionários são sempre os que se tornam capazes de enfrentar o desafio da morte, tanto no sentido literal como no simbólico, por serem capazes de construir o novo a partir da superação da velha ordem.
3. A filosofia e a morte No diálogo Fedon Platão descreve os momentos finais da "ida de Sócrates antes de sua execução, quando discute com os discípulos a respeito da ligação entre corpo e alma. Sendo o corpo um estorvo para a alma, a serenidade do sábio diante da morte é o reconhecimento de que a separação significa a libertação do espírito. No decorrer da história da filosofia, muitas vezes os pensadores trataram explicitamente a respeito da morte e da imortalidade da alma, mas essa questão está na raiz de toda filosofia e, mesmo quando não se discute diretamente sobre a morte, ela se situ a no horizonte de toda reflexão filosófica. É nesse sentido que Platão afirma ser a filosofia uma meditação da morte, e Montaigne diz que "filosofar é aprender a morrer". Pois se a filosofia é uma das formas da transcendência humana, pela qual refletimos a respeito de nossa existência e destino, a discussão sobre a morte não lhe pode ser estranha. Segundo Heidegger (ver Capitulo 31 - O existencialismo), o ser do homem como possibilidade, como projeto, o introduz na temporalidade. Isso não significa apenas que o homem tem um passado e um futuro e que os momentos se sucedem passivamente uns aos outros; significa que o futuro se revela como aquilo para o qual a existência é projetada e que o passado é aquilo que a existência transcende. O existir humano consiste no lançar-se continuo às possibilidades, entre as quais se encontra justamente a situação-limite representada pela morte, a qual possibilita o olhar crítico sobre o cotidiano. E nesse sentido que podemos considerar o homem como um "ser-para-a-morte". Para Heidegger, só o homem autêntico enfrenta a angústia e assume a construção da sua vida. O homem inautêntico foge da angústia, refugia-se na impessoalidade, nega a transcendência e repete os gestos de "todo o mundo" nos atos cotidianos. No mundo massificado do homem inautêntico, até a morte é banalizada, e dela se fala como se fosse um acontecimento genérico, longínquo e impalpável. A impessoalidade tranquiliza e aliena o homem, confortavelmente instalado num universo sem indagações. Há a recusa de refletir sobre a morte como um acontecimento que nos atinge pessoalmente. Sartre, referindo-se à sua infância em As palavras, diz: "A morte era a minha vertigem porque eu não amava viver: é o que explica o terror que ela me inspirava. (...) Quanto mais absurda a vida, menos suportável é a morte". Na teoria sartriana, ao contrário da de Heidegger, a consciência da morte retira todo significado à vida, pois a morte é a" nadificação" dos nossos projetos, a certeza de que um nada total nos espera . E conclui pelo absurdo da morte e, simultaneamente, da vida, que é uma "paixão inútil". Mas seja a morte considerada, como em Heidegger, algo que dá sentido à vida; ou, como em Sartre, a dimensão do absurdo, o que nos intriga é a recusa que o homem contemporâneo manifesta em abordar a temática do morrer humano. Em nenhum tempo a recusa do enfrentamento da própria fínitude foi tão visível. Muitas podem ser as explicações dadas por antropólogos, sociólogos, psicólogos que certamente fecundarão a matéria de reflexão dos filósofos. O que não podemos é deixar de pensar na morte: vejamos por que.
4. Aspecto histórico-social da morte As sociedades tribais e tradicionais Observando a história e os diversos povos, verificamos que o sentido da morte não é sempre o mesmo. A maneira pela qual um povo enfrenta a morte ou o significado que lhe dá refletem de certa forma o sentido que ele confere à vida. Os pólos antagônicos vida e morte não são excludentes, pois são formas dialéticas inseparáveis. No mundo tribal, a morte não é propriamente um problema. Ela não é enfocada do ponto de vista da morte de um indivíduo, mas se acha integrada nas práticas coletivas de culto aos mortos, aos ancestrais. Como vimos no Capítulo 6, o homem primitivo se acha de tal forma envolvido na comunidade que o seu ser, não tendo o centro em si mesmo, se faz por meio da participação no todo coletivo. Como o eu se afirma pelos outros, o existir do primitivo é essencialmente relacional, e a individualidade se encontra envolvida pela totalidade maior da comunidade. Por isso a morte não é percebida como dissolução, o morto apenas muda de estado e passa a pertencer à comunidade dos mortos, o que é viabilizado por "rituais de passagem" adequados à ocasião. "Vivos e mortos, totem e deuses, antepassados, participam de uma mesma realidade vital."' Não há nenhuma idéia de aniquilamento, e os mortos podem retornar ao mundo dos vivos durante o sono destes e por meio de aparições. Nas sociedades tradicionais, fortemente marcadas pela predominância da vida comunitária, ocorre algo semelhante. Como são sociedades relacionais, onde o indivíduo se encontra inserido numa totalidade mais importante que ele, há uma série de cerimônias e rituais que cercam o evento da morte. Isso não significa que seja fácil morrer (muito ao contrário), mas sim que a morte não é banalizada porque se acha inserida no cotidiano das pessoas como um evento importante. Evidentemente, essas cerimônias variam conforme os costumes, mas v amos relembrar algumas delas, típicas das pequenas cidades, até ainda na primeira metade do século XX. Os parentes, vizinhos e amigos acompanham a agonia do moribundo. Geralmente o doente permanece em casa, atendido pelo médico da família. As cerimônias são procedidas conforme a religião do morto: dependendo disso, chama-se o padre para dar a extrema unção, de preferência enquanto há lucidez, sem falsos escrúpulos de que o doente perceba a proximidade da morte. Ao morrer, geralmente seu caixão é colocado sobre a mesa da sala de jantar e diante dele passarão os parentes, conhecidos e até transeuntes ocasionais, velando -se o defunto noite adentro. As crianças circulam pelo ambiente. O morto é chorado e freqüentemente relembrado. A ausência é assinalada pelo luto, cuja duração varia conforme o tipo de parentesco; em algumas regiões, a viúva deve guardá-lo pelo resto da vida. Um conjunto de atos determinados socialmente - como visitas ao cemitério, missas para a alma do morto, flores, visitas de pês ames, cartas de condolências - ajuda os parentes a atravessar o período doloroso da perda e a reintegração à vida normal. A negação da morte Um fenômeno diferente vem ocorrendo há cerca de cinquenta anos, como resultado do processo de urbanização dos centros industrializados. A grande cidade cosmopolita impiedosamente destruiu os antigos laços, fragmentando a comunidade em núcleos cada vez menores e instaurando extremo individualismo. As pessoas vivem no ritmo acelerado imprimido pelo sistema de produção e não têm tempo para os velhos e os doentes. A medicina, cada vez mais especializada, se ocupa desses "marginais" da sociedade - porque reduzidos à improdutividade -, que são trasladados para hospitais "a fim de ser melhor assistidos". Se, por um lado, são tratados em ambientes assépticos e com técnicas sofisticadas que prolongam a vida, por outro lado não escapam à solidão e à impessoalidade do atendimento. Os enfermeiros e médicos são eficientes, mas o moribundo se encontra afastado da mão amiga, da atenção sem pressa nem profissionalismo. Quando morre, o velório geralmente é feito no necrotério, para o qual não se costuma levar crianças, as quais crescem à margem dessa realidade da vida: nunca veem um morto, nem um cemitério. *** O. Gusdorf, Tratado de metafísica, p. 99. O francês Philippe Ariês aborda essas questões no clássico História da morte no Ocidente. Nele se refere ao sociólogo Geoffrey Gorer, que escreveu um estudo com o título provocativo de "A pornografia da morte", no qual mostra como a morte se tornou um tabu,substituindo o sexo como principal interdito: "Antigamente dizia-se às crianças que se nascia dentro de um repolho, mas elas assistiam à grande cena das despedidas, à cabeceira do moribundo. Hoje, são iniciadas desde a mais tenra idade na fisiologia do amor, mas, quando não veem mais o avô e se surpreendem, alguém lhes diz que ele repousa num belo jardim por entre as flores"> A "obscenidade" em falar da morte se torna grave quando se t rata dos doentes terminais, ou seja, daqueles que não escaparão da morte próxima. É comum tal fato ser escamoteado: os parentes, com a cumplicidade dos médicos, escondem do paciente sua doença letal e o fim próximo. Nem diante da iminência da morte ousamos falar dela. A tentativa de ocultamento da morte talvez explique a sofisticação das funerárias americanas que "tomam conta do morto". Medard Boss, médico e psicanalista suíço, diz: "Nunca esquecerei minhas visitas aos "Funeral Homes" americanos, nos quais os defuntos são maquilados, um cigarro é colocado em suas bocas, e ao lado se tocam fitas gravadas com discursos que os falecidos pronunciaram outrora ". O antropólogo brasileiro Roberto da Matta também se refere ao fato de os mortos serem colocados em caixões acolchoados de cetim que lembram uma cama confortável: "O que seria tudo isto, senão um modo radical de livrar -se do morto, transformando-o em alguém que realmente dá a impressão de repousar?" Por que será que o homem contemporâneo escamoteia assim a morte? Talvez porque a dificuldade que ele sente para lidar com a morte esteja relacionada à sua incapacidade para lidar com a vida. O homem urbano, individualista, massacrado pelo sistema de produção, obrigado a desempenhar funções que não escolheu e num ritmo que não é o seu, acha -se muito distante daquilo que poderíamos considerar uma boa qualidade de vida. Independentemente do progresso técnico atingido, são altos os níveis de alienação humana no trabalho, no consumo, no lazer (ver Capítulo 2 - Trabalho e alienação). Mais ainda, a insensibilidade com relação à morte individual tem paralelo com a inconsciência referente ao destino do planeta. Pela primeira vez na história da humanidade a morte ultrapassa a dimensão do indivíduo e ameaça a sobrevivência de todos. Por isso, é preciso resgatar, no mundo atual, a consciência da morte, o que não deve ser entendido como a preocupação mórbida, doentia do homem que vive obcecado pela morte inevitável. Tal atitude seria pessimista e paralisante. Ao contrário, ao reconhecer a finitude da vida, reavaliamos nosso comportamento e escolhas, e podemos proceder a uma diferente priorização de valores. Por exemplo, se tomamos como valores absolutos o acúmu o de bens, a fama e o poder, a reflexão sobre a mortalidade torna ridículos esses anseios, privilegiando outros valores que nos dão maior dignidade. Essa mesma reflexão, no nível planetário, nos ajuda a questionar os falsos objetivos do progresso a qualquer custo. A consciência da morte nos ajuda a questionar não só se nossa vida é autêntica ou inautêntica, mas também se faz sentido o destino que os povos legaram para seus herdeiros.
Exercícios
1. "O problema da morte, em seu significado radical, não tem apenas conexão com o problema do aniquilamento ou da sobrevivência: consiste nele." (Julian Marias) Em que medida a citação acima revela a dimensão religiosa da morte?
2. "No fundo de nós mesmos, nós nos sentimos não-mortais". Comente a frase de Philippe Ariês, observando que ele não diz "imortais", mas "não-mortais". 3. Em que sentido a reflexão sobre a morte pode ser importante para a ética?
4. Qual é a principal diferença entre o enfrentamento da morte no mundo tribal, nas sociedades tradicionais e no mundo contemporâneo?
5. O que quer dizer, nas sociedades contemporâneas, o "tabu da morte"?
6. "... ninguém morre antes da hora, O tempo que perdeis não vos pertence mais do que o que p recedeu vosso nascimento, e não vos interessa". "Considerai em verdade que os séculos intermináveis ,já passados, são para vós como se não tivessem sido. Qualquer que seja a duração de vossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração e sim no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu, Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante. Imagináveis então nunca chegardes ao ponto para o qual vos dirigíeis? Haverá caminho que não tenha fim?" (Montaigne) Comente o significado do trecho dos Ensaios, de Montaigne, capítulo XX, intitulado "De como filosofar é aprender a morrer".

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

NÃO ME ABANDONE JAMAIS

Questões do filme: Não me abandone jamais
1.De que maneira a clonagem humana é abordada? Dois dos requisitos necessários para um ser com uma alma na filosofia de Tomás de Aquino são livre-arbítrio e a capacidade de amar. Isso se verifica nos personagens centrais? Justifique.
2.Como Ruth, Kathy e Tommy tomam conhecimento do que o destino os reserva?
3. Por qual motivo eles não escapam de seu "destino", mesmo quando tem a oportunidade para isso?
4. Havia um boato em Hailsham, que se dois doadores se apaixonassem profundamente, eles poderiam se beneficiar de algum tipo de “tempo a mais”. Isso se confirmou? Justifique.
5. Procurar entender o motivo de estarmos aqui, no mundo; pensar se vale a pena saber que temos um propósito; questionar o quanto é bom ou ruim ‘prever’ quando vamos morrer.Comente como o filme coloca essas questões metafísicas fundamentais.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Livre-arbítrio e responsabilidade humana - Corliss Lamont

A minha tese é a seguinte: a pessoa que está convencida que tem liberdade de escolha ou livre-arbítrio tem um maior sentido de responsabilidade do que a pessoa que pensa que o determinismo absoluto governa o universo e a vida humana. O determinismo no sentido clássico significa que todo o fluir da história, incluindo todas as escolhas humanas e as ações, estão completamente determinadas desde o início dos tempos. Quem quer que acredite que "o que tem que ser, será" pode tentar escapar à responsabilidade moral apesar de ter agido erradamente defendendo que tal estava predestinado por leis rígidas de causa e efeito. Mas se a livre escolha realmente existe na altura de escolher, os homens têm claramente responsabilidade moral por decidirem entre duas ou mais alternativas genuínas, e o álibi determinista não tem qualquer peso. Assim, o coração da nossa discussão radica na questão de saber se é verdade que temos livre escolha ou se é verdadeiro o determinismo universal. Tentarei resumir brevemente as razões principais que apontam para a existência de livre-arbítrio. Primeiro: há uma intuição vulgar imediata e poderosa, que é partilhada por virtualmente todos os seres humanos de que existe liberdade de escolha. Esta intuição parece-me tão forte como a sensação de prazer ou de dor; e a tentativa dos deterministas provarem que esta intuição é falsa é tão artificial como a pretensão […] de que a dor não é real. Claro que a existência desta intuição não prova por si a existência da liberdade de escolha, mas justamente por ser uma intuição tão forte, coloca o ônus da prova do lado dos deterministas, que têm que provar que se baseia numa ilusão. Segundo: podemos recusar o argumento determinista admitindo, ou até insistindo, que há uma grande quantidade de determinismo no mundo. O determinismo na forma de leis causais do tipo "se…então…" governa não só o funcionamento de inúmeros movimentos corporais como o funcionamento de grande parte do universo. Podemos estar contentes com o fato dos sistemas respiratório, digestivo, circulatório, e dos batimentos cardíacos, funcionarem deterministicamente — pelo menos até avariarem. O determinismo versus livre-arbítrio é uma falsa questão; o que nós sempre tivemos foi um determinismo e um livre-arbítrio relativos. O livre-arbítrio sempre esteve limitado pelo passado e por um conjunto vasto de leis causais do tipo "se…então…". Ao mesmo tempo, os seres humanos usam o livre-arbítrio para tirarem partido daquelas leis determinísticas que fazem parte da ciência e das máquinas que produziram. A maioria de nós guia carros, e somos nós e não estes quem decide quando e para onde vão. O determinismo usado de forma sábia e controlada — o que nem sempre se verifica — pode tornar-nos mais livres e felizes. Terceiro: o determinismo é algo relativo, não apenas porque os seres humanos têm liberdade de escolha, mas também porque a contingência e o acaso são um traço fundamental do cosmos. A contingência percebe-se melhor na intersecção de sequências de eventos independentes entre si sem qualquer conexão causal prévia. O meu exemplo favorito é o da colisão do transatlântico Titanic com um iceberg, a meio da noite de 14 de Abril de 1912. Foi um acidente terrível em que morreram mais de 1500 pessoas. A deriva do iceberg desde o norte e o percurso do Titanic de oeste a partir de Inglaterra representam claramente duas sequências causais de eventos independentes. Se, por hipótese, um grupo de especialistas tivesse sido capaz de identificar as duas sequências causais e assegurar que tal catástrofe estava predeterminada desde o momento em que o transatlântico deixou o porto de Southampton, ainda assim isso não perturbaria a minha teoria. A relação espaço-tempo do iceberg e do Titanic, desde que este iniciou a sua viagem, seria, em si, uma relação de contingência, já que não haveria qualquer causa relevante para a explicar. Como referi, a presença constante da contingência no mundo é igualmente provada pelo fato de todas as leis naturais assumirem a forma de sequências ou relações do tipo "se…, então…". O elemento se é obviamente condicional e demonstra a coexistência habitual da contingência com o determinismo. A atualidade da contingência nega a ideia de uma necessidade total e universal a operar em todo o universo. No que diz respeito as escolhas humanas, a contingência assegura que as alternativas de que temos experiência são indeterminadas relativamente ao ato de escolher, o que faz depois que uma delas seja determinada. A minha quarta razão é que o significado aceite de potencialidade, nomeadamente, de que todo o objeto e acontecimento no cosmos têm possibilidades plurais de comportamento, interação e desenvolvimento, deita por terra a tese determinista. Se quiseres realizar uma viagem de férias no próximo Verão, pensarás sem qualquer dúvida em inúmeros destinos possíveis antes de te decidires. O determinismo implica que isso não seja mais do que teatro, pois estás determinado escolher precisamente o destino que escolheste. Quando relacionamos o padrão causal com a ideia de potencialidade, verificamos que a causalidade mediada pela escolha livre pode ter o seu efeito apropriado na atualização de qualquer uma das diversas possibilidades existentes. Quinto: os processos normais do pensamento humano estão ligados à ideia de potencialidade tal como a descrevi, e do mesmo modo tendem a mostrar que a liberdade de escolha é real. Pensar envolve constantemente concepções gerais, universais ou abstratas sob as quais são classificados os diferentes particulares. No caso que discuti na minha quarta razão, "viagem de férias" era a concepção geral e os diferentes lugares que poderias visitar eram os particulares, as alternativas, as potencialidades, que alguém podia livremente escolher. Se de fato não houver liberdade de escolha, então a função do pensamento humano de resolver problemas torna-se supérflua e numa máscara de faz-de-conta. Sexto: é esclarecedor para o problema da liberdade de escolha perceber que apenas existe o presente, e que é sempre alguma atividade presente que dá origem ao passado, no mesmo sentido em que um esquiador deixa atrás de si um trilho na neve quando desce uma colina. Tudo o que existe — o vasto conjunto agregado de matéria inanimada, a imensa profusão de vida anterior, o ser humano em toda a sua diversidade — existe ou existem apenas como acontecimentos quando ocorrem neste instante exato, que é agora. O passado está morto e passado; existe apenas na medida em que se exprime nas estruturas e atividades presentes. A atividade do presente imediatamente anterior estabelece os fundamentos através dos quais opera o presente imediato. O que aconteceu no passado tanto cria limitações como possibilidades, que condicionam sempre o presente. Mas condicionar neste sentido não significa o mesmo que determinar; cada dia se desenvolve a partir de agora no seu próprio momento, atualizando novos padrões de existência, mantendo e destruindo outros. Portanto, quando um homem escolhe e age no presente não é inteiramente controlado pelo passado, mas parte da evolução interminável do poder cósmico. É um agente ativo e iniciador, que, montado na onda de um dado presente, delibera entre alternativas abertas para alcançar decisões relativamente às muitas e diversas fases da sua vida. A minha sétima razão é que a doutrina do determinismo universal e eterno se autorrefuta quando consideramos, por redução ao absurdo, todas as suas implicações. Se as nossas escolhas e ações de hoje estivessem determinadas ontem, então estariam igualmente determinadas antes de ontem, no dia do nosso nascimento, no dia do nascimento do nosso sistema solar e da terra há bilhões de anos. Considere-se então a consequência: para o determinismo, o chamado impulso irresistível que os sistemas jurídicos reconhecem quando julgam crimes cometidos por pessoas insanas, deve ser considerado com o mesmo vigor para as ações realizadas por pessoas sãs e virtuosas. Segundo a filosofia determinista, o homem bom sente um impulso irresistível para dizer a verdade, para ser bom para os animais e para expor a corrupção na política. Oito: são inúmeras as palavras que perdem o seu significado normal no novo dialeto do determinismo. Refiro-me a palavras como abstenção, proibição, moderação e remorso. Uma vez provada a verdade do determinismo, teríamos que rasurar grande parte dos dicionários existentes e redefinir uma grande quantidade de coisas. Por exemplo, que significado deveria ter proibição quando já está determinado que irás recusar o segundo cocktail de Martini? Em boa verdade, só se pode proibir quando se quer impedir alguém de fazer alguma coisa que esteja no seu alcance fazer. Mas segundo o determinismo não poderias aceitar o segundo cocktail por já estar predeterminado que dirás "Não". Não estou a dizer que a natureza deva conformar-se aos nossos usos linguísticos, mas os hábitos linguísticos dos seres humanos, que evoluíram ao longo da imensidão dos tempos, não podem ser negligenciados na análise do livre-arbítrio e do determinismo. Finalmente, não penso que o termo "responsabilidade moral" possa manter o seu significado tradicional, a não ser que exista liberdade de escolha. Segundo a perspectiva da ética, da lei e do direito criminal, é difícil entender como um determinista consistente possa ter um sentido de responsabilidade pessoal adequado relativamente ao desenvolvimento de padrões éticos decentes. Mas a questão permanecerá independentemente de terem sido ou de alguma vez poderem vir a ser deterministas consistentes, ou até do fato de o livre-arbítrio ser um traço inato e tão profundamente característico da natureza humana, como sugeriu Jean-Paul Sartre ao afirmar "Não somos livres para deixar de ser livres". (Retirado de "Freedom of the Will and Human Responsibility", in Pojman, Louis P. (2006), Philosophy: The Quest for Truth, 6.ª ed. Nova Iorque, Oxford University Press, pp. 367-368.)
Questões 1.Qual a tese defendida pelo autor e como é definido o determinismo? 2.Porque pode-se dizer que o determinismo e o livre arbítrio são relativos? 3. O que o autor quer dizer com a expressão ”a presença constante da contingência no mundo é igualmente provada pelo fato de todas as leis naturais assumirem a forma de sequências ou relações do tipo "se…, então…"? 4.Porque o determinismo absoluto se autorrefuta? 5.Porque algumas palavras perdem o sentido no novo dialeto do determinismo?

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Texto: Mundo de Sofia - Aristóteles

Cara Sofia! Ficaste certamente espantada com a teoria das ideias de Platão. Não és a primeira. Não sei se aceitaste tudo com facilidade ou se fizeste alguns comentários críticos. Mas se fizeste comentários críticos, podes estar certa de que as mesmas objeções foram levantadas já por “Aristóteles” (384-322 a.C.). Ele foi durante vinte anos aluno na Academia de Platão. Aristóteles não era um ateniense. Era natural da Macedônia, mas foi para a Academia quando Platão tinha 61 anos. O pai era um médico reconhecido - ou seja, um cientista. Este pano de fundo já nos diz algo sobre o projeto filosófico de Aristóteles. Aquilo que o interessava acima de tudo era a natureza viva. Não foi apenas o último grande filósofo grego, foi também o primeiro grande biólogo da Europa. Se quisermos formular tudo de um modo um tanto exagerado, podemos dizer que Platão estava tão concentrado nas formas ou "ideias" eternas que mal reparava nas transformações da natureza. Aristóteles, pelo contrário, interessava-se precisamente pelas transformações – ou aquilo que nós hoje designamos por processos físicos. Se quisermos exagerar ainda mais, podemos dizer que Platão se afastava do mundo sensível e só distinguia passageiramente aquilo que vemos à nossa volta. (Ele queria sair da caverna! Queria olhar para o eterno mundo das ideias!). Aristóteles fazia exatamente o inverso: dirigia-se à natureza e estudava peixes e rãs, anêmonas e papoulas. Podes dizer que Platão usou apenas o seu entendimento; Aristóteles, por seu lado, usou também os sentidos. Até na sua maneira de escrever encontramos claras diferenças. Enquanto Platão era poeta e criador de mitos, os textos de Aristóteles são secos e pormenorizados como uma enciclopédia. Em compensação, na origem de muitas coisas acerca das quais ele escreve, há estudos naturalistas intensivos. Na Antiguidade são referidos mais de 170 títulos que Aristóteles terá escrito. Hoje, conservam-se 47 textos. Não se trata de livros acabados. A maior parte dos textos de Aristóteles são constituídos por apontamentos para as lições. Mesmo no tempo de Aristóteles, a filosofia era principalmente uma atividade oral. A importância de Aristóteles para a cultura europeia não reside apenas no fato de ele ter criado a linguagem técnica que ainda hoje as diversas ciências utilizam. Ele foi o grande sistemático que fundou e ordenou as diversas ciências. Como Aristóteles escreveu sobre todas as ciências, vou tratar apenas de algumas das áreas mais importantes. Dado que falei tanto de Platão, deves saber primeiro como é que Aristóteles argumenta contra a teoria das ideias de Platão. Depois, vamos ver como é que ele concebe a sua própria filosofia da natureza. Aristóteles recapitulou aquilo que os filósofos da natureza antes dele disseram. Vamos ver como é que ele ordena os nossos conceitos e funda a lógica como ciência. Por fim, vou falar ainda um pouco da visão de Aristóteles acerca do homem e da sociedade. Se aceitares estas condições, só precisamos arregaçar as mangas e começar. “Não há ideias inatas” Tal como os filósofos anteriores, também Platão queria encontrar algo eterno e imutável no meio de todas as transformações. Deste modo, encontrou as ideias perfeitas, que são superiores ao mundo sensível. Além disso, para Platão, estas ideias eram mais reais do que todos os fenômenos na natureza. Primeiro, vinha a ideia "cavalo" - em seguida, todos os cavalos do mundo sensível, que galopavam como cópias na parede de uma caverna. Logo, a ideia "galinha" veio antes da galinha e do ovo. Aristóteles achava que Platão tinha posto tudo às avessas. Estava de acordo com o seu professor em que o cavalo particular "flui", e que nenhum cavalo vive eternamente. Também estava de acordo em que a forma do cavalo é em si eterna e imutável. Mas a "ideia" cavalo é, para ele, apenas um conceito que nós homens formamos, depois de termos visto um determinado número de cavalos. Para Aristóteles, a "forma" cavalo consiste nas características do cavalo – diríamos hoje na “espécie” cavalo. Vou precisar: pela "forma" cavalo, Aristóteles designa aquilo que é comum a todos os cavalos. E neste caso, a imagem da forma do biscoito já não é válida, porque as formas existem independentemente do biscoito particular. Aristóteles não acreditava que essas formas, por assim dizer, existissem na sua própria prateleira na natureza. Para Aristóteles, as "formas" residem nas próprias coisas como qualidades específicas das coisas. Aristóteles também não concorda com Platão em que a ideia "galinha" precede a galinha. Aquilo a que Aristóteles chama a "forma" galinha, reside na forma das qualidades específicas de cada galinha - por exemplo, pôr ovos. Assim, a galinha em si e a "forma" galinha são tão inseparáveis como a alma e o corpo. Com isto, dissemos basicamente quase tudo acerca da crítica de Aristóteles à teoria das ideias de Platão. Mas deves notar que estamos a falar de uma mudança drástica no pensamento. Para Platão, o grau máximo de realidade é o que pensamos com a razão. Para Aristóteles, é igualmente evidente que o grau máximo de realidade é o que percebemos ou sentimos com os sentidos. Segundo Platão, aquilo que vemos à nossa volta na natureza é apenas reflexo de algo que existe no mundo das ideias - e consequentemente na alma do homem. Aristóteles dizia exatamente o contrário: aquilo que está na alma do homem é apenas reflexo dos objetos da natureza. O mundo real é a natureza, segundo Aristóteles, enquanto Platão fica preso a uma concepção mítica do mundo que confunde as representações do homem com o mundo real. Aristóteles aponta para o fato de que nada existe na consciência que não tenha existido primeiro nos sentidos. Platão poderia ter dito que não há nada na natureza que não tenha existido primeiro no mundo das ideias.Desta forma, Platão duplicou o número de coisas, segundo Aristóteles. Ele explicara o cavalo particular recorrendo à ideia "cavalo". Que tipo de explicação é esta, Sofia? Isto é, de onde vem a ideia "cavalo"? Existirá ainda um terceiro cavalo - do qual a ideia "cavalo" é por sua vez apenas uma cópia? Aristóteles defendia que tudo o que temos em pensamentos e em ideias chegou à nossa consciência através daquilo que vimos e ouvimos. Mas também temos uma razão inata. Temos uma faculdade inata de ordenar todas as impressões sensíveis em diferentes grupos e classes. Assim nascem conceitos como "pedra", "planta", "animal" e "homem". Assim surgem os conceitos "cavalo", "lagosta" e "canário". Aristóteles não negava que o homem tivesse uma razão inata. Muito pelo contrário: para Aristóteles, a razão é precisamente a característica mais importante do homem. Mas a nossa razão está completamente "vazia" enquanto não sentirmos nada. Logo, um homem não possui "ideias" inatas. “As formas são as qualidades das coisas, e a importância da causa final” Após ter esclarecido a sua posição em relação à teoria das ideias de Platão, Aristóteles afirma que a realidade é constituída por diversas coisas particulares que apresentam uma unidade de “forma” e “matéria”. A "matéria" é aquilo a partir do qual a coisa é feita, enquanto a "forma" caracteriza as qualidades particulares das coisas. Uma galinha esvoaça à tua frente, Sofia. A "forma" da galinha é precisamente o esvoaçar – assim como cacarejar e pôr ovos. Pela "forma" da galinha são, portanto, designadas as qualidades particulares da sua espécie - ou aquilo que a galinha faz. Quando a galinha morre e deixa de cacarejar, a "forma" da galinha também deixa de existir. A única coisa que permanece é a "matéria" da galinha (é bastante triste, Sofia!); mas já não é uma galinha. Como já afirmei, Aristóteles estava interessado nas transformações da natureza. Na matéria há sempre uma possibilidade de se atingir uma determinada forma. Podemos dizer que a matéria se esforça por realizar uma possibilidade em si inerente. Cada mudança na natureza é para Aristóteles uma transformação da matéria da “possibilidade” para a “realidade”. Eu vou explicar isto, Sofia. Vou contar uma história cômica. Era uma vez um escultor que estava a trabalhar num enorme bloco de granito. Todos os dias esculpia e talhava a pedra informe, e certo dia recebeu a visita de um jovem. - O que é que procuras? - perguntou o jovem. - Espera - disse o escultor. Passados alguns dias, o rapaz voltou e nessa altura, o escultor tinha esculpido um belo cavalo a partir do bloco de granito. O rapaz fixou emudecido o cavalo. Em seguida, voltou-se para o escultor e perguntou: - Como é que sabias que isso estava ali? Sim, como é que ele podia saber? De certo modo, o escultor tinha visto a forma do cavalo no bloco de granito, porque nesse bloco de granito estava inerente a possibilidade de se tornar cavalo. Aristóteles achava que em todas as coisas da natureza está inerente uma possibilidade de realizar uma forma determinada. Voltemos à questão da galinha e do ovo. Num ovo de galinha está inerente a possibilidade de se tornar galinha. Isto não significa que todos os ovos de galinha se tornem galinhas - inclusivamente há alguns que vão parar à mesa do café – da - manhã, sob a forma de ovo estrelado, omelete ou ovo mexido, sem realizarem a forma inerente ao ovo. Mas também é óbvio que um ovo de galinha nunca se pode converter em ganso. Essa possibilidade não reside no ovo de galinha. A forma de uma coisa indica tanto as suas possibilidades como as suas limitações. Quando Aristóteles fala de forma e de matéria não está a pensar apenas em organismos vivos. Tal como a "forma" da galinha é cacarejar, bater com as asas e pôr ovos, a "forma" da pedra é cair ao chão. Tal como a galinha não pode evitar cacarejar, também a pedra não pode evitar cair ao chão. Obviamente, podes levantar uma pedra e lançá-la ao ar, mas como a natureza da pedra é cair ao chão, não a podes lançar para a lua. (Se fizeres esta experiência, deves ser um pouco cautelosa, porque a pedra pode facilmente vingar-se. Ela quer regressar à terra tão rapidamente quanto possível - e ai daquele que estiver no seu caminho!). Antes de deixarmos este gênero de considerações, segundo as quais todas as coisas animadas e inanimadas têm uma forma que diz algo acerca da sua potencialidade, devo ainda acrescentar que Aristóteles tinha uma visão bastante importante sobre as relações de causalidade na natureza. Quando, no dia-a-dia, falamos de "causas" que provocam isto ou aquilo, referimo-nos ao modo como algo sucede. A janela parte-se porque o Pedro atirou uma pedra, um sapato forma-se porque o sapateiro cose algumas peças de couro. Mas Aristóteles achava que na natureza havia vários tipos de causa. É principalmente importante compreender o que é que ele entendia por causa final. No caso da janela partida também é naturalmente oportuno perguntar por que é que Pedro atirou a pedra. Perguntamos também qual era a sua intenção, qual era a sua finalidade. Não podem subsistir dúvidas de que uma intenção ou um fim têm um papel importante na produção de um sapato. Mas Aristóteles também tinha em vista a mesma causa final em alguns processos físicos na natureza. Vamos ficar-nos por um exemplo: Porque é que chove, Sofia? Com certeza já aprendeste na escola que chove porque o vapor de água das nuvens arrefece e se condensa em gotas de água que caem no solo devido à gravidade. Aristóteles teria concordado, mas acrescentando que apenas mencionaste três causas. A causa material é o fato de o vapor de água atual (as nuvens) estar presente quando o ar arrefeceu. A “causa eficiente” é o fato de o vapor de água arrefecer, e a “causa formal” é o fato de a "forma" ou natureza da água ser cair no solo. Se não tivesses dito mais nada, Aristóteles teria acrescentado que chove porque as plantas e os animais precisam da água da chuva para crescerem. Era o que ele designava por “causa final”. Como vês, Aristóteles atribuiu às gotas de água uma espécie de finalidade vital ou a "intenção". Nós diríamos ao contrário: as plantas crescem porque há umidade. Percebes esta diferença, Sofia? Aristóteles acreditava que em toda a natureza há uma finalidade. Chove para que as plantas cresçam, e as laranjas e as uvas crescem para que os homens as comam. Hoje, a ciência já não pensa assim. Dizemos que a alimentação e a umidade são condições para que os homens e os animais possam viver. Sem estas condições, nós não existiríamos. Mas não é intenção das laranjas ou da água alimentarem-nos. No que diz respeito à sua teoria das causas, podemos sentir-nos tentados a afirmar que Aristóteles se enganou, mas não nos vamos precipitar. Muitos homens acham que Deus criou o mundo para que homens e animais pudessem viver nele. Perante este cenário, pode-se também afirmar que a água corre nos rios porque os homens e os animais precisam de água para viver. Mas, nesse caso, falamos do fim ou da intenção de Deus. Não são as gotas de chuva ou a água dos rios que nos querem bem. “Lógica e a escala da natureza” A distinção entre "forma" e "matéria" também tem um papel importante na descrição que Aristóteles faz do modo como o homem conhece os objetos na natureza. Quando conhecemos algo, ordenamos as coisas em classes ou grupos distintos. Eu vejo um cavalo, depois vejo mais um cavalo - e em seguida mais um. Os cavalos não são totalmente idênticos, mas há algo que é comum a todos os cavalos e aquilo que é comum a todos os cavalos é a "forma" do cavalo. O que é diferente ou individual pertence à "matéria" do cavalo. Desta forma, os homens ordenam as coisas e colocam-nas em locais distintos. Colocamos as vacas no curral, os cavalos na cavalariça, os porcos na pocilga e as galinhas no galinheiro. O mesmo sucede quando Sofia Amundsen arruma o seu quarto. Põe os livros na estante, coloca os livros da escola na pasta e as revistas na gaveta da cômoda. Os vestidos são dobrados cuidadosamente - a roupa interior numa prateleira, as camisolas noutra e as meias numa gaveta. Repara que fazemos o mesmo nas nossas cabeças: separamos coisas que são feitas de pedra, de lã e de borracha. Distinguimos as coisas animadas das inanimadas, e subdividimos ulteriormente estas coisas em "plantas", "animais" e "homens". Estás a compreender, Sofia? Aristóteles queria fazer uma arrumação profunda no quarto da natureza. Procurou provar que todas as coisas na natureza pertencem a diversos grupos e subgrupos. (Hermes é um ser vivo, mais exatamente, um animal, mais exatamente, um vertebrado, mais exatamente, um mamífero, mais exatamente, um cão, mais exatamente, um labrador, mais exatamente, um labrador macho). Vai ao teu quarto, Sofia. Levanta um objeto qualquer do chão. Seja o que for que tu levantes, descobrirás que aquilo em que tocas pertence a uma ordem. No dia em que vês algo que não consegues classificar sofres um choque. Se, por exemplo, descobrisses uma pequena coisa acerca da qual não conseguias dizer com segurança se pertence ao reino vegetal, animal ou mineral, acho que não te atreverias a tocar-lhe. Falei de reino vegetal, reino animal e reino mineral. Estou a pensar naquele jogo em que um pobre coitado é enviado para o corredor enquanto os outros imaginam algo que ele deve adivinhar quando regressa à sala. Os outros decidem pensar no gato do vizinho “Tareco” que, nesse momento, está sentado no jardim. Em seguida, o pobre jogador entra de novo e começa a adivinhar. Os outros só podem responder "não" ou "sim". Se o jogador é um bom aristotélico - e nesse caso não é de modo algum um pobre coitado, a conversa pode decorrer mais ou menos assim: - É concreto? - (Sim!) - Pertence ao reino mineral? - (Não!) - É animado? - (Sim!) - Pertence ao reino vegetal? - (Não!) - É um animal? - (Sim!) - É um pássaro? - (Não!) - É um mamífero? - (Sim!) – É todo o animal? - (Sim!) - É um gato? - (Sim!) - É o Tareco? (Siiiiiim! Risos...) Foi, portanto, Aristóteles quem descobriu este jogo. Por seu lado, a Platão cabe a honra de ter inventado o “esconde-esconde”; e a Demócrito já atribuímos a honra de ter descoberto o jogo do Lego. Aristóteles foi um homem meticuloso e metódico que queria pôr em ordem os conceitos dos homens. Por isso, foi ele quem fundou a “lógica” como ciência. Estabeleceu várias regras precisas para determinar que conclusões ou que demonstrações são válidas logicamente. Vamos ver um exemplo: se eu afirmo primeiro que "todos os seres vivos são mortais" (1a premissa), e afirmo em seguida que "Hermes é um ser vivo" (2a premissa), posso deduzir a conclusão: "Hermes é mortal”. (Chama-se silogismo esse tipo de construção lógica). O exemplo mostra que a lógica de Aristóteles trata da relação entre termos, neste caso "ser vivo" e "mortal". Mesmo sendo forçoso admitir que o silogismo dado é cem por cento sustentável, temos de reconhecer que ele não nos diz propriamente nada de novo. Já sabíamos que Hermes é "mortal". (Porque é um cão, e todos os cães são "seres vivos" - logo, "mortais", ao contrário das pedras). Sim, Sofia, já sabíamos isso. Mas nem sempre a relação entre grupos ou coisas nos parece tão evidente. Por vezes, pode ser necessário ordenar os nossos termos. Vou contentar-me com um exemplo: será verdade que crias de rato podem mamar leite da mãe como sucede com as ovelhas ou os porcos? Isto parece muito estranho, mas não nos podemos esquecer de que os ratos não põem ovos. (Quando é que eu vi um ovo de rato ultimamente?). Mas dão à luz crias – tal como os porcos ou as ovelhas. Mas os animais que dão à luz crias são chamados mamíferos - e os mamíferos mamam o leite das mães. Com isto, atingimos o nosso objetivo. Tínhamos a resposta dentro de nós, mas foi preciso refletir primeiro. De momento, tínhamo-nos esquecido de que os ratos mamam realmente leite das mães. Talvez seja porque nunca vimos as crias dos ratos a mamar, certamente porque os ratos se envergonham um pouco à frente dos homens quando têm de alimentar as suas crias. Quando Aristóteles quer "pôr ordem" na existência, ele aponta primeiro para o fato de que tudo o que há na natureza pode ser dividido em dois grupos principais. Por um lado, temos as “coisas inanimadas” - como pedras, gotas de água e torrões de terra. Nelas não está inerente nenhuma potencialidade de mudança. Essas coisas inanimadas só se podem alterar, segundo Aristóteles, por ação do exterior. Por outro lado, temos as “coisas animadas”, nas quais é inerente a possibilidade de se alterarem. No que diz respeito às coisas animadas, Aristóteles salienta que devem ser divididas em 2 grupos -por um lado o reino vegetal (ou plantas) e por outro os seres animados. Por fim, os seres animados podem dividir-se em subgrupos - nomeadamente os “animais” e os “homens”. Tens de admitir que esta classificação, apesar da imprecisão em relação às plantas, é clara e compreensível. Entre as coisas animadas e não animadas existe uma diferença essencial. Também entre as plantas e os animais existe uma diferença essencial, por exemplo, entre uma rosa e um cavalo. E eu gostaria de pensar também que existe uma diferença essencial entre um cavalo e um homem. Mas onde é que residem exatamente essas diferenças? Consegues responder a isto? Infelizmente, não tenho tempo para esperar que escrevas a resposta e a coloques num envelope cor-de-rosa com um torrão de açúcar, por isso respondo eu mesmo imediatamente. Quando Aristóteles classifica os fenômenos da natureza em diferentes grupos, parte das qualidades das coisas, ou, mais exatamente, do que elas podem fazer ou do que elas fazem. Todos os seres vivos (plantas, animais e homens) têm a faculdade de assimilar a alimentação, de crescer e de se multiplicar. Os homens e os animais têm ainda a capacidade de sentir e de se mover na natureza. Todos os homens têm ainda a faculdade de pensar - ou, justamente, de ordenar as suas impressões sensíveis em diferentes grupos e classes. Deste modo, não há na natureza limites verdadeiramente definidos. Vemos uma passagem gradual de plantas mais simples para plantas mais complexas, de animais simples para animais complexos. No cimo desta escala está o homem - que, segundo Aristóteles, reúne toda a vida da natureza. O homem cresce e alimenta-se, tal como as plantas, tem sensações e a capacidade de se mover, tal como os animais, mas, além disso, tem uma característica muito particular, que só o homem possui: a capacidade de pensar racionalmente. Deste modo, o homem possui uma centelha da razão divina, Sofia. Sim, eu disse "divina". Em alguns passos, Aristóteles explica que tem de haver um Deus que deu origem a todos os movimentos da natureza. Deste modo, Deus representa o vértice absoluto na escala da natureza. Aristóteles acreditava que os movimentos das estrelas e dos planetas regiam os movimentos aqui na terra. Mas tinha de haver algo que movesse os corpos celestes. A esse algo chamava Aristóteles “o Primeiro Motor” ou Deus. O primeiro motor não se move, mas é a primeira causa dos movimentos dos corpos celestes e, consequentemente, de todos os movimentos na natureza. “Ética , política e a concepção da mulher” Regressemos ao homem, Sofia. A "forma" do homem é, segundo Aristóteles, possuir uma "alma vegetativa", uma "alma sensitiva", como uma "alma racional". E ele pergunta então: como é que o homem deve viver? De que é que o homem precisa para viver bem? Posso responder em poucas palavras: o homem só é feliz quando pode desenvolver e usar todas as suas faculdades e capacidades. Aristóteles acreditava em três formas de se conseguir uma vida feliz: a primeira forma de vida tem a ver com o desejo e o prazer do corpo. A segunda como cidadão livre e responsável. A terceira como pesquisador e filósofo, Aristóteles sublinha que estas três formas se completam para que o homem possa ter uma vida feliz. Ele recusava, portanto, qualquer tipo de parcialidade. Se vivesse hoje, talvez dissesse que um homem que apenas cuida do seu corpo vive tão parcialmente e tão mal como aquele que apenas usa a cabeça. Ambos os extremos são expressão de uma conduta errada de vida. No que diz respeito à relação com o próximo, Aristóteles também aconselha um "meio termo". Não devemos ser covardes nem temerários, mas corajosos. (Pouca coragem significa covardia, demasiada coragem significa temeridade). Também não devemos ser avarentos nem esbanjadores, mas generosos. (Ser pouco generoso é avareza, ser muito generoso é esbanjamento). O mesmo é válido para a alimentação. Comer pouco é perigoso, mas comer muito também é perigoso. A ética de Platão e de Aristóteles faz recordar a ciência médica grega: só através da harmonia e da moderação me torno um homem feliz ou "harmonioso". A idéia de que o homem não deve levar nada ao extremo, na vida, está também patente na visão aristotélica da sociedade. Aristóteles afirmava que o homem é um "ser social". Na sua opinião, sem a sociedade à nossa volta não somos verdadeiros homens. A família e a cidade satisfazem as necessidades vitais mais básicas como a alimentação e o calor, o casamento e a educação dos filhos. Todavia, a forma mais elevada de comunidade humana só pode ser, para Aristóteles, o Estado. Com isto coloca-se a questão: como é que o Estado deveria ser organizado? (Ainda te recordas do Estado platônico dos filósofos?). Aristóteles menciona várias formas boas de governo. Uma delas é a “monarquia” - significa que há um único chefe supremo do Estado. Para que esta forma de Estado seja boa, não pode degenerar em "tirania", caso em que um único soberano governa o Estado em seu próprio proveito. Uma outra forma boa de Estado é a “aristocracia”. A aristocracia é o governo de um grupo restrito de indivíduos. Esta forma de Estado tem de se precaver para não degenerar numa oligarquia, um regime no qual apenas são salvaguardados os interesses de poucas pessoas. Uma terceira forma de Estado é a “democracia”. Mas também esta forma de Estado tem o seu lado contrário. Uma democracia pode facilmente degenerar numa "oclocracia" que significa governo da multidão. (Mesmo que Hitler não se tivesse tornado chefe de Estado da Alemanha, muitos pequenos nazis teriam podido estabelecer uma terrível "oclocracia"). Finalmente, temos de dizer algo acerca da ideia de Aristóteles sobre a mulher. Infelizmente, não era tão animadora como a de Platão. Aristóteles pensava que algo faltava à mulher. Ela é um "homem incompleto". Na reprodução, a mulher é passiva e receptora, enquanto o homem é ativo e doador. Por isso, segundo Aristóteles, a criança herdava apenas as características do homem. Todas as características da criança estavam contidas no sêmen do homem. A mulher é como o terreno que recebe e conserva a semente, enquanto o homem é o próprio "semeador". Ou, dito de uma forma verdadeiramente aristotélica: o homem dá a "forma", a mulher dá a "matéria". É surpreendente e lamentável que um homem tão perspicaz como Aristóteles se pudesse enganar desse jeito no que se refere à relação entre os sexos. Mas isto nos mostra duas coisas: primeiro, que Aristóteles não deve ter tido muita experiência pratica na vida com mulheres e crianças; em segundo lugar, que uma série de coisas pode dar errado quando são apenas homens que reinam supremos na filosofia e na ciência. A concepção aristotélica da mulher é particularmente grave porque se tornou predominante durante a Idade Média, e não a de Platão. Deste modo, também a Igreja herdou uma concepção da mulher para a qual não há justificação nenhuma na Bíblia. Jesus não era de modo algum inimigo das mulheres! Por agora não digo mais nada! Mas continuarás a ter notícias minhas. Após ter lido duas vezes o capítulo acerca de Aristóteles, Sofia meteu de novo as folhas no envelope amarelo e olhou ao seu redor. Depois de ter lido acerca de Aristóteles sabia que era igualmente importante manter a ordem em conceitos e ideias. .
Questões 1.Quais as diferenças entre Platão e Aristóteles? 2. Qual a importância de Aristóteles para a cultura europeia? 3.Em que Aristóteles estava de acordo com Platão? 4. Porque para Aristóteles as ideias não eram inatas? 5.O que era “matéria” e “forma” para Aristóteles? 6. Porque pode-se dizer que Aristóteles foi um homem meticuloso e metódico? 7. Comente sobre a divisão da natureza entre coisas inanimadas e animadas. 8, Em que o homem se diferencia e se assemelha em relação a animais e plantas? 9. Quais as três formas de se adquirir uma vida feliz? 10. Quais eram as ideias de Aristóteles sobre as mulheres?